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NAUFRÁGIO, NÁUFRAGOS E O ANDAR À DERIVA...

Um título dramático para a trágico-comédia dos tempos actuais!


Tenho escolhido não me pronunciar, mas hoje, mudei de ideias...

Como diria a minha avó e outros antigos como ela: “quem não sente, não é filho de boa gente” e de quando em vez são-me apertados alguns botões.

Eu como profissional e humano que escolheu o coaching como metodologia de mudança, aprendizagem e desenvolvimento, e a programação neurolinguística como a epistemologia que guia e norteia a sua abordagem, não posso, nem quero estar indiferente à moda dos coaches e aos coaches da moda.


Como é óbvio, não vou fulanizar nem particularizar esta minha reflexão-desabafo em ninguém. Ficaremos pela supressão do índice de referência – “eles” – sempre útil em casos de necessidade de omitir informação.


Numa ultraleve passagem pela história... As correntes da psicologia moderna, surgiram entre o final do século XIX e início do século XX, na Europa e nos EUA.

Nascida e criada entre médicos, a psicologia moderna, ao longo das décadas foi-se ramificando, incluindo novas visões de Homem e adoptando novos métodos.

Nestes últimos 150 anos, foram ocorrendo alguns momentos em que surgiu algo que vinha prometer a-cura-de-todos-os-males-do-mundo, e a “cura” da vez, é o coaching.


Pois é! Contra mim falo, enfiando a carapuça. Mas, convicta de que termos um olhar crítico sobre as nossas escolhas, nos ajuda a fazer novas ou a melhorar as que temos.


Como estou “metida nisto até ao pescoço” todos os dias e sou, orgulhosamente, crítica, o meu sistema de activação reticular permite-me ver, quase diariamente, uma imensidão de truques, dicas, passos e regras para ser feliz, ter sucesso, aumentar a performance e realizar tudo o que quero na vida. UAU!!!


Toda esta oferta surge da identificação de uma efectiva necessidade de consumo. Ao que parece, as pessoas precisam, querem e procuram alguém que lhes dê instruções, claras e precisas, para que possam conduzir as suas vidas, de tal modo, que ao menos lhes faça parecer que estão a chegar a algum lugar de sucesso. Mesmo que no próprio, não exista sequer a clareza do que significa “sucesso” para si.


Necessidades culturalmente induzidas por ídolos e modelos das redes sociais. Solas gastas com a cor das paixões, a dizer um monte de disparates e a esfregarem-se nos rostos esvaziados de sentido, fazem surgir toda uma oportunidade de consumo e uma massa de consumidores, bem ao jeito do que se procura quando vivemos numa economia de mercado.


“Torne-se o melhor (qualquer coisa) do mundo e arredores” – vende cursos, vivências, experiências e encontros. Assim numa lógica de ou só vende a 1 pessoa, ou não vai dar para serem todos “o” maior, melhor, mais brilhante e bem sucedido. Numa espécie de publicidade à própria fórmula da antimatéria, cujo efeito se anula a si próprio.

Promessas mirabolantes, de conquista rápida, vociferadas por bocas cheias de soberba.

Shows de luzes, sons, coreografias, cores e jogos de cadeiras que criam impacto emocional, como quem dá um doce a uma criança, sem lhe dizer que depois amarga.

Pessoas, possivelmente até bem intencionadas, com pouca ou nenhuma formação, quer académica, quer autodidata, na superficialidade ensinam fórmulas para chegar ao “topo”.

  • Os 3 passos para ser feliz.

  • Os 5 passos para ter a vida que deseja.

  • As 8 regras para atingir o sucesso.

  • A dica do dia para fazer isto... + 6 dicas para fazer aquilo...

Numa lógica de toma este pacotinho, mistura com água, agita e está pronto a consumir.

Um liofilizado instantâneo em jeito de fast food que até enche a barriga, mas não alimenta.

Que deixa rasto... um rasto de tantos outros, cujo sofrimento, se sente ridicularizado. Sim! Falo da minha própria experiência a trabalhar com pessoas. São já muitas, impossível não parar para compreender, aquelas que chegam com uma imensa pressão para ser algo, fazer algo, mostrar algo, para se sentirem alguém. Questionando que, se com 3 passos + 5 dicas + 2 regras se pode ser e ter tudo o que se quer nesta e nas próximas vidas, porque raio elas não conseguem...


Nietzsche ao escrever “Deus está morto”, referiu-se à total perda de ligação à existência metafísica, aquela que dota os seres humanos de um senso de direcção, sentido, organização e crescimento. A descrença em Deus, fez os humanos acreditarem em qualquer coisa...


Aristóteles legou-nos a ideia de que os seres humanos possuem uma segunda natureza, uma natureza de virtude, que não é inata, precisa antes ser alcançada, desocultada, descoberta e conquistada.

O caminho da virtude requer busca, disciplina, consistência e alinhamento. É um caminho de consciência, é um caminho de construção, um caminho de aprendizagem e revelação, é uma obra a ser empreendida durante toda a vida.


E a conclusão? Nenhuma que queira partilhar... não foi minha intenção trazer dicas.


~ por Joana Sobreiro

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