INVISIBILIDADE
Quanto tempo acha que demora a formar uma primeira impressão de alguém?
Não faço ideia se acordou hoje com vontade de saber isto! Mas agora que já leu a pergunta, acredito que vai querer saber a resposta... Seja bem-vindo ao lado invisível da força.
Todos os dias decidimos quem merece a nossa confiança, quem nos inspira prudência, quem parece competente, quem nos desperta simpatia, quem evitaríamos sentar ao nosso lado durante um jantar de três horas e quem, por razões que nem nós conseguimos explicar, nos deixa imediatamente desconfortáveis. Mas quase nunca nos interrogamos sobre aquilo que acabou de acontecer dentro de nós. Atribuímos este fenómeno à "intuição", que diga-se de passagem é uma expressão extraordinariamente útil, sobretudo nos momentos em que reduzimos a ela a nossa preguiça de pensar e tem ainda a vantagem de explicar quase tudo... exactamente porque não explica quase nada.
Então volto a perguntar: quanto tempo demora a decidir, num primeiro relance, se a pessoa que se apresenta diante de si é alguém de confiança, se é alguém competente ou se gosta dela? Neste momento, a resposta interessa menos pela curiosidade e mais pelas consequências que apresenta.
Já lhe aconteceu estar com alguém que conhece há décadas e, de repente, essa pessoa dizer uma frase que não bate certo? Ou tomar uma decisão que não encaixa? Ou, sem aviso prévio, chorar onde esperava que ela mostrasse indiferença ou sorrir onde pensava haver mágoa? Diante do espanto e durante um instante diz a si próprio, em silêncio: “mas quem é esta pessoa?”, “não a reconheço...”.
O curioso não é o choque, é a rapidez com que o anulamos. Quase imediatamente corrigimos a pessoa, não a nossa ideia dela – "ele mudou", "ela está estranha", "isto não é normal nela" – como se a pessoa tivesse a obrigação de continuar a caber no esboço que fizemos dela, num qualquer dia, em qualquer outro momento, com a informação de que então dispúnhamos. É mais confortável acreditar que foi a pessoa que mudou, do que rever a imagem que temos de nós próprios enquanto bons conhecedores de pessoas.
Entre a primeira impressão e algumas décadas, o risco é criarmos certezas e deixarmos de dizer “é a impressão que tenho” e passarmos a dizer “eu conheço esta pessoa”.
Repare que não estou a ser especulativa, com mais frequência dizemos “eu conheço-o”, às vezes até há quem use a expressão “conheço-o como as palmas das minhas mãos”, mas nunca dizemos “continuo a descobri-lo” e só esta última nos mantém disponíveis para sermos surpreendidos.
O véu que estou a começar a levantar, é que conhecer alguém não é chegar a uma conclusão, mas manter aberta a investigação.
Imagine que está sentado numa esplanada e na mesa ao lado, duas pessoas conversam. Uma delas começa a explicar uma ideia. Ainda vai a meio da segunda frase e a outra já acena com a cabeça, sorri e interrompe:
– "Ah já sei!... já percebi onde queres chegar."
Mas, curiosamente, não tinha percebido, tinha apenas reconhecido um padrão. Enquanto a primeira continuava a falar, a segunda deixou de a ouvir e passou a ouvir outras vozes, outras conversas, outras pessoas que, noutros momentos e em outros lugares disseram coisas parecidas. Quando respondeu, respondeu a essas memórias, não à pessoa que tinha diante de si.
Quem observa a cena percebe algo que, provavelmente, nenhum dos dois consegue nomear. Um deles continua a falar, o outro já só conversa com a percepção que construiu para si próprio. A pessoa que expunha a sua ideia, mesmo que inconscientemente, sente que deixou de ser ouvida e foi substituída por um fantasma na cabeça da outro.
Voltemos, então, à pergunta com que comecei este artigo: quanto tempo demora a formar uma primeira impressão de alguém?
A resposta medida em laboratório, em 2006, por dois investigadores da Universidade de Princeton, Janine Willis e Alexander Todorov, e publicada na Psychological Science, é quase indecente: cerca de cem milissegundos. Isso mesmo! Um décimo de segundo.
Pouco para uma conversa, apertado para uma apresentação, mais estreito ainda para uma observação consciente, mas aparentemente suficiente para começarmos a decidir se alguém nos inspira confiança, competência, simpatia ou ameaça.
Mas o mais surpreendente não foi isto, foi o que aconteceu quando alargaram o tempo de exposição a imagens de pessoas desconhecidas. Mesmo com mais tempo, os julgamentos não se tornaram significativamente mais precisos, nem mudaram de sentido. Tornaram-se apenas mais confiantes. As pessoas não usaram o tempo extra para reconsiderar, usaram-no para se convencerem ainda mais de que tinham razão.
Dito de outra forma: decidimos quem é o outro antes dele ter tido qualquer oportunidade de o mostrar. Depois passamos o resto da relação – dias, meses, décadas, por vezes uma vida inteira – a confirmar, com uma convicção cada vez mais sólida, aquilo que decidimos num décimo de segundo, sem sequer perceber que tínhamos decidido alguma coisa.
O CÉREBRO NÃO QUER CONHECER.
QUER PREVER.
Quando percebemos que interpretámos mal alguém, é comum pedirmos desculpa, corrigimos a situação e depois seguimos em frente. Afinal foi apenas um erro de avaliação, foi corrigido, fim de história. Mas... e se não tiver sido um erro? E se tiver sido precisamente o cérebro a funcionar da forma como foi desenhado para funcionar?
Se assim for, deixa de haver um “culpado” e passamos a estar diante de uma condição.
O leitor aí desse lado poderá estar a dizer: “ok! Aceito... às vezes erramos”, mas deixe-me dizer-lhe: esse pensamento não sobrevive a um encontro com a neurociência contemporânea. Não sobrevive porque parte de uma premissa errada, a de que o cérebro está, por defeito, a tentar captar a realidade, mas o facto é que não está.
Hoje, uma das hipóteses mais influentes na neurociência sugere algo quase ofensivo para a nossa intuição. A suposição de que o primeiro acto perceptivo não é procurar captar a realidade, mas prevê-la e só depois a realidade poderá ter a oportunidade de dizer: "Não... desta vez enganaste-te."
A hipótese que hoje reúne mais consenso está associada a nomes como Karl Friston e foi desenvolvida, com grande clareza filosófica, por Andy Clark – designada como predictive processing.
A ideia central é esta: o cérebro não processa o mundo de fora para dentro, processa-o de dentro para fora. Gera, a cada instante, uma previsão sobre o que vai encontrar e usa os dados sensoriais, sobretudo para corrigir os erros dessa previsão, não para construir a percepção do zero. Ou seja, por defeito, não vemos – confirmamos.
Karl Friston deu um enquadramento matemático à compreensão do cérebro e Andy Clark ajudou a traduzi-lo para a ciência cognitiva, mas foi Lisa Feldman Barrett quem levou estas implicações directamente para o território das relações humanas...
Lisa Feldman Barrett, psicóloga e neurocientista canadiano-americana, propõe que nem sequer as emoções que atribuímos aos outros são leituras directas do seu rosto ou da sua voz. São construções, montadas a partir de previsões moldadas por toda a nossa história anterior.
Quando olhamos para um determinado conjunto de expressões faciais, não estamos a "detectar" raiva como quem lê um termómetro, estamos a aplicar um modelo e o modelo é nosso, pessoal, particular e intransmissível.
O que esta proposta explora é a noção de que não reconhecemos tristeza no outro, não detectamos raiva no outro, mas construímos a hipótese de tristeza ou de raiva. O que fazemos é interpretar determinados sinais à luz da história que trazemos connosco. A emoção continua a ser do outro, já a leitura... essa continua a ser nossa.
Há uma razão evolutiva para isto e não é bonita: prever é barato, sentir é caro.
Um cérebro que tivesse de processar cada rosto, cada gesto, cada frase, como se fosse a primeira vez, gastaria uma energia incomportável e chegaria tarde de mais às conclusões que mantêm um organismo vivo. A eficiência venceu a verdade há muito, muito tempo, numa qualquer savana onde ninguém tinha tempo para epistemologia.
O cérebro não foi desenhado para conhecer, foi desenhado para prever – prever o suficiente para sobreviver.
Visto não conseguirmos deixar de participar na construção daquilo que pensamos que os outros são, então precisamos considerar que há uma consequência directa desta forma de entender o cérebro, que me parece difícil de processar, porque nos leva a questionar se então, alguma vez, fomos capazes de realmente conhecer alguém.
Durante muito tempo acreditei, que o desafio das relações humanas era aprender a observar melhor. Hoje começo a entender que o verdadeiro desafio está em aprender a desconfiar da extraordinária facilidade com que acreditamos já ter observado o suficiente.
Não quero assumir um tom dramático, mas aceite-o como floreado narrativo... Aquilo que tornou possível a sobrevivência da nossa espécie pode ser exactamente aquilo que mais dificulta o encontro entre duas consciências. Um cérebro que prevê, rapidamente deixa de observar e o que não é observado, começa lentamente a ser substituído por histórias.
A verdade é que não se conhece que alguma vez, algum cérebro, tenha prometido à humanidade que lhe mostraria o mundo como ele é. Não precisou. Bastou-lhe apenas a mostrar-nos o suficiente para chegarmos vivos ao dia seguinte.
O MAPA FALA PRIMEIRO
E FALA MAIS ALTO
Há décadas, muito antes de Karl Friston formular o modelo de predictive processing, um conjunto de terapeutas e linguistas reunidos sob o nome Programação Neurolinguística aproximou-se de uma leitura semelhante. A metáfora de Korzybski “o mapa não é o território” foi posteriormente incorporada pela PNL e embora esta disciplina não tenha o mesmo estatuto empírico que a neurociência cognitiva, a distinção que fez entre experiência e interpretação oferece uma linguagem útil para pensarmos sobre generalização, omissão e atribuição de significado. É aqui que entram três operações que a nossa mente faz continuamente, sem nos pedir licença: Generaliza quando transforma uma experiência num padrão. Por exemplo, alguém chega atrasado três vezes e, sem darmos por isso, deixa de ser "alguém que chegou atrasado" para passar a ser "uma pessoa que não sabe ser pontual” ou mais extremado “alguém pouco fiável".
Omite ou elimina quando deixa de prestar atenção ao que não considera relevante. Essa mesma pessoa pode ter chegado atrasada três vezes, mas talvez já não registemos as muitas vezes em que chegou a horas, porque deixaram de confirmar a história que entretanto construímos. Também distorce quando atribui significado ao que observa, preenchendo os espaços que os factos deixaram em aberto: "chegou atrasado porque não respeita o meu tempo", "está a fazê-lo de propósito porque está zangado comigo", "já não dá importância à nossa relação". Nada disto acontece necessariamente de forma deliberada, é assim que a mente torna a realidade suficientemente coerente para podermos navegar nela e é também assim que, sem percebermos, podemos começar a confundir o mapa que construímos com a pessoa que temos diante de nós.
O resultado destas três operações, que acontecem automática e continuamente, sem que tenhamos consciência delas, é que a pessoa com quem convivemos nunca nos chega directamente. Chega-nos através do mapa que fomos construindo dela: feito de experiências, padrões, informações que retivemos e significados que atribuímos. Este mapa, uma vez desenhado, tem uma inércia extraordinária e continuará a ser consultado muito depois de o território já ter mudado.
É neste ponto que a contribuição de Lucas Derks se torna particularmente interessante. A partir da PNL e do estudo da cognição social, Derks começou, nos anos 1990, a explorar a forma como representamos mentalmente as pessoas com quem nos relacionamos. Dessa investigação nasceu aquilo a que chamou Nova Psicologia do Espaço Mental, uma abordagem que procura compreender como organizamos a nossa experiência subjectiva através das relações espaciais que estabelecemos internamente entre nós, os outros e o mundo social.
A resposta de Derks não é apenas verbal ou conceptual. As nossas relações parecem organizar-se também no espaço mental. É possível, por exemplo, pensar em alguém e perceber que essa pessoa aparece-nos mentalmente muito perto ou muito longe, acima ou abaixo de nós, à nossa frente ou de lado. Podemos representá-la maior ou mais pequena, mais nítida ou mais vaga, mais presente ou quase fora do campo de atenção. Não se trata de uma metáfora que inventamos conscientemente para explicar uma relação, mas uma forma de explorar como essa relação está organizada e codificada na nossa experiência interna.
É a isto que Derks chama Panorama Social: uma paisagem mental onde as pessoas, os grupos e até a própria representação de nós mesmos ocupam posições e relações espaciais, que contribuem para determinar a forma como vivemos essas relações. O interesse do modelo está precisamente em tornar visível essa arquitectura normalmente invisível da experiência social.
Aqui está a parte particularmente interessante deste trabalho: se alguém que nos intimida aparece sistematicamente muito próximo e acima de nós, não estamos apenas a descrever onde "imaginamos" essa pessoa, estamos a observar uma organização da nossa experiência codificada que pode estar ligada à forma como nos sentimos e respondemos perante ela. Da mesma maneira, alguém que ocupa um lugar muito distante, ou cuja representação se tornou pequena e pouco acessível, pode ser experienciada de uma forma muito diferente de alguém que sentimos próximo, grande e directamente presente.
O trabalho de Derks explora precisamente esta relação entre a estrutura espacial da representação e a experiência da relação. É aqui que o Panorama Social se torna particularmente relevante para aquilo que estamos a discutir: podemos mudar de emprego, de cidade, de ideias, de prioridades e até de personalidade, mas a representação que alguém construiu de nós, pode continuar organizada segundo uma configuração criada muito tempo antes.
Isto significa que não temos apenas uma ideia sobre alguém – damos-lhe um lugar no nosso espaço mental. Se damos um lugar às pessoas, podemos passar anos a relacionar-nos com esse lugar sem reparar que a pessoa já saiu de lá.
Lucas Derks dá-nos então esta imagem, particularmente útil, para percebermos o que acontece quando uma representação de alguém se instala na nossa cabeça. Se damos às pessoas um lugar no nosso espaço mental, há uma consequência quase cómica – podemos continuar a relacionar-nos com uma versão de alguém que ficou congelada no tempo.
Como costumo dizer aos meus alunos, em jeito de brincadeira: transformámos as nossas mentes em arcas congeladoras. Vamos congelando as pessoas à medida que as conhecemos e, depois, passamos a relacionar-nos com elas a partir da versão que temos guardada no congelador. E não é preciso deixar de ver alguém durante vinte anos para isto acontecer.
Uma mãe pode continuar a falar com o filho de quarenta anos como se ele ainda tivesse quinze. Um antigo colega de escola pode continuar a ser, na nossa cabeça, "o rapaz tímido da turma", mesmo que hoje esteja permanentemente no debate público. Podemos conhecer alguém todos os dias, viver com essa pessoa, trabalhar ao seu lado e, ainda assim, continuar a responder-lhe a partir de uma versão dela que construímos há anos. As pessoas não ficam congeladas, as nossas representações é que ficam.
Aqui a coisa começa a ficar filosoficamente interessante, porque este problema é muito mais antigo do que a neurociência, a psicologia cognitiva ou a própria PNL. Filósofos que nunca se sentaram à mesma mesa, por caminhos completamente diferentes, passaram séculos a confrontar-se com uma pergunta semelhante: como podemos realmente conhecer outro ser humano se aquilo que encontramos nunca é a sua experiência por dentro?
A FILOSOFIA JÁ SABIA DISTO, SÓ USAVA
OUTRAS PALAVRAS
Hegel, filósofo alemão do início do século XIX começa por nos colocar diante de uma dificuldade fundamental. Na Fenomenologia do Espírito (1807), Hegel desenvolve a dialéctica do senhor e do escravo, e mostra que a consciência de si não se constitui isoladamente, mas no encontro com outra consciência. Essa outra consciência não é um objecto que eu possa simplesmente definir, possuir ou reduzir à imagem que faço dela. Ela é autónoma, reconhece-me, mas também pode recusar o lugar que lhe atribuo.
Isto introduz uma possibilidade que é particularmente incómoda nas relações humanas: a pessoa que temos diante de nós, pode não ser a pessoa que pensamos estar a ver.
Husserl, fundador da fenomenologia, leva a questão para outro nível ao interrogar aquilo que significa, afinal, ter acesso à experiência de outra pessoa. Posso observar o corpo do outro, ouvir a sua voz, acompanhar os seus gestos e expressões e, a partir daquilo que se manifesta, reconhecer essa pessoa como outro sujeito, alguém que, tal como eu, vê, sente, pensa e experiencia o mundo a partir de uma perspectiva que lhe é própria. Mas há um limite que permanece. Por mais próximo que esteja de alguém, não tenho acesso directo à experiência que essa pessoa está a viver; aquilo que para mim é experiência imediata, para o outro só pode ser apreendido através das formas como essa experiência se manifesta. A pessoa está diante de mim, mas a experiência dela não.
O filósofo do existencialismo francês, Merleau-Ponty, procura encontrar uma saída para este aparente isolamento. O encontro com o outro não acontece apenas através do pensamento, acontece através do corpo, do olhar, dos gestos, da presença e de uma dimensão pré-reflexiva da experiência. Antes de interpretarmos, já estamos a responder uns aos outros. Ainda assim, essa proximidade não elimina a distância entre duas experiências. Podemos encontrar o outro sem deixar de reconhecer que o outro permanece outro.
Martin Buber transforma esta questão numa distinção que continua extraordinariamente actual. Há uma diferença entre relacionarmo-nos com alguém como Eu-Isso e encontrá-lo numa relação Eu-Tu.
No primeiro caso, o outro entra nas categorias que utilizamos para organizar o mundo. É "o meu chefe", "a minha mãe", "o meu amigo", "a pessoa difícil", "o irresponsável". Conhecemos as suas características, antecipamos as suas reacções, sabemos como costuma pensar. A categoria simplifica a realidade e permite-nos navegar nela, mas existe um momento em que deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar da pessoa.
Na relação Eu-Tu, Buber descreve outra possibilidade. O outro deixa de ser apenas alguém que eu consigo descrever e volta a aparecer como presença, como alguém que não está inteiramente contido naquilo que já sei sobre ele. É precisamente essa abertura ao que não estava previsto que torna possível um encontro diferente.
O mais interessante é que estes filósofos não estão a dizer exactamente a mesma coisa, nem seria correcto fingir que estão. Hegel está a pensar o reconhecimento, Husserl a intersubjectividade, Merleau-Ponty a experiência corporal e Buber a natureza da relação. Mas há uma fronteira comum que atravessa todos estes pensamentos: o outro nunca se deixa reduzir completamente àquilo que consigo saber sobre ele.
Esta ideia muda de peso quando a colocamos ao lado do que vimos na neurociência. Se o cérebro precisa de construir modelos para interpretar o mundo e se esses modelos participam também na forma como percebemos as outras pessoas, então o problema não está apenas em podermos interpretar alguém mal. Está em podermos construir uma representação suficientemente estável para deixarmos de reparar que estamos a lidar com uma representação.
É aqui que a questão do respeito ganha uma dimensão menos moral e mais epistemológica. Respeitar verdadeiramente o outro não significa apenas tratá-lo bem, ser educado ou cumprir uma regra de convivência. Significa reconhecer que existe naquela pessoa um centro autónomo de experiência ao qual nunca terei acesso completo e que, por isso mesmo, nenhuma representação que eu faça dela pode ser tomada como definitiva.
O respeito começa quando reconheço o limite do meu conhecimento e talvez seja precisamente esse limite que mantém o outro visível.
OS MECANISMOS
QUE NOS IMPEDEM DE VER
Se juntarmos o cérebro preditivo de Friston, os mapas da PNL, o panorama social de Derks e a fronteira filosófica de Buber, começa a ficar claro que a dificuldade em reconhecer o outro não é um defeito moral. Não é falta de empatia, nem falta de bondade, nem sequer falta de tempo, menos ainda uma falha de carácter. É estrutural!
A previsão, que nos mantém vivos, é a mesma que fecha o outro num padrão antes de ele abrir a boca.
A memória, sem a qual não haveria identidade nenhuma, é também o arquivo de onde tiramos, automaticamente, a versão antiga de alguém que já não existe.
A linguagem, que nos permite partilhar experiência, obriga-nos também a comprimir pessoas inteiras em substantivos – "ele é assim", "ela é aquilo" – como se um ser humano coubesse numa frase.
A identidade, a nossa própria, precisa de estabilidade para não desmoronar e uma das formas mais eficazes de manter essa estabilidade é manter também estáveis os outros à nossa volta. É incomodativo, quase ameaçador, que a pessoa que definimos como "o cínico do grupo" apareça um dia genuinamente comovida. Preferimos, silenciosamente, que ela volte a ser cínica. É mais previsível. Dá menos trabalho.
As categorias e os papéis – pai, chefe, cliente, sogra, concorrente – fazem o resto do trabalho: reduzem uma consciência inteira a uma função dentro da nossa história e, por trás de tudo isto, duas necessidades quase animais: a necessidade de estabilidade, que odeia surpresas, e a necessidade de confirmação, que prefere ter razão a ter razão de se surpreender.
Todos estes mecanismos, por caminhos diferentes, chegam sempre à mesma estação – substituímos pessoas por histórias. Depois relacionamo-nos com essas histórias, convictos, genuinamente convictos, sem qualquer má-fé, de que estamos a relacionar-nos com pessoas.
O MAPA NÃO FICA À PORTA
Até aqui estamos a falar de pessoas, de relações, de famílias, de amigos, de desconhecidos, de todas aquelas situações em que acreditamos estar a ver alguém quando, na verdade, estamos a ver a representação que construímos dessa pessoa. Poderia ser reconfortante imaginar que estes mecanismos ficam à porta quando entramos num contexto profissional, como se o cérebro percebesse que agora começa o horário de trabalho e decidisse comportar-se de outra maneira...
A mesma pessoa que chega a casa e continua a tratar o filho adulto como se ainda tivesse quinze anos, entra no escritório e pode continuar a tratar um colega como “o júnior”, mesmo depois deste ter adquirido experiência suficiente para já não caber nessa categoria. A mesma pessoa que, numa relação, pensa “eu sei exactamente como ela vai reagir” pode, numa reunião, olhar para um colega e pensar “ele é sempre assim”, “ela complica tudo”, “aquele departamento nunca percebe”, fechando em poucas palavras uma realidade que levou anos a construir e que, entretanto, pode já ter mudado.
Na vida pessoal, congelamos pessoas. No trabalho, congelamos pessoas e, muitas vezes, damos ao congelamento um nome que parece perfeitamente legítimo: função, senioridade, departamento, perfil, desempenho, estilo de liderança.
É aqui que a coisa se torna particularmente interessante, porque uma organização não elimina os mecanismos através dos quais construímos mapas sobre os outros, oferece-lhes, em muitos casos, ainda mais matéria-prima. Os papéis são explícitos, as relações têm hierarquias, existem expectativas sobre comportamentos, avaliações de desempenho, histórias que circulam sobre pessoas, reputações que se consolidam e categorias que nos ajudam a decidir rapidamente quem é competente, quem é confiável, quem precisa de supervisão, quem “é bom com pessoas” ou quem “não tem perfil” para determinada função.
Tudo isto é útil! Uma organização não poderia funcionar sem algum grau de simplificação. Não podemos entrar numa reunião todas as manhãs como se nunca tivéssemos conhecido ninguém naquela sala, nem podemos tomar cada decisão ignorando toda a experiência acumulada sobre as pessoas com quem trabalhamos.
Como já vimos, no decorrer destes parágrafos, o desafio começa quando aquilo que era uma representação útil se transforma numa verdade definitiva.
Uma mãe pode continuar a ver o filho através da adolescência que conhece, um casal pode continuar a discutir com a versão um do outro que ficou guardada depois de uma determinada crise, um amigo pode continuar a ocupar o lugar que lhe atribuímos há vinte anos, mesmo que a vida entretanto o tenha levado para outro sítio. A diferença é que, numa organização, estas representações podem ganhar consequências muito concretas. Podem determinar quem é ouvido, quem recebe uma oportunidade, quem é considerado competente, quem é convocado para uma reunião, quem recebe autonomia e quem passa anos a tentar provar que já não é a pessoa que os outros decidiram que era.
Talvez seja por isso que os números sobre engagement sejam mais interessantes, quando deixamos de os ler apenas como números.
Os relatórios da Gallup têm mostrado, de forma consistente, que apenas uma minoria dos trabalhadores a nível mundial se encontra verdadeiramente envolvida com o seu trabalho – este último, produzido em 2025 e publicado em 2026, apresentou 20% como a média mundial de engagement, Portugal com 19%, abaixo da média mundial e acima da média europeia, que apresentou 12% (perdoe-me este comentário inútil, mas tenho de o fazer: estes números são bizarros!). Perante estes dados, é previsível que se procure saber como aumentar o engagement e logo surgirem inquéritos, workshops, planos de acção, indicadores e iniciativas destinadas a tornar as pessoas mais comprometidas com a organização.
Mas e se o engagement não for o centro do problema? E se estivermos a medir, com bastante precisão, uma consequência visível de fenómenos que os próprios inquéritos têm dificuldade em captar? E se parte desse desligamento resultar de uma sucessão de pequenos momentos em que alguém percebeu que já não estava a ser visto como uma pessoa capaz de surpreender, aprender, mudar ou contribuir de outra maneira, mas como uma categoria que os outros já tinham decidido como interpretar?
Alguém apresenta uma ideia e ouvimo-la antes de a pessoa a terminar porque já sabemos “onde ela quer chegar”. Alguém discorda e interpretamos a discordância à luz daquilo que já sabemos sobre o seu feitio. Alguém muda de função e suspeitamos de incoerência, quando pode simplesmente ter aprendido e desenvolvido novas competências. Alguém que sempre foi reservado começa a ser mais participativo e estranhamos. Alguém habitualmente assertivo hesita e perguntamos o que lhe aconteceu. Em todos estes casos, a surpresa não resulta apenas daquilo que a pessoa fez, mas do conflito entre aquilo que ela acabou de fazer e aquilo que nós tínhamos decidido que ela faria.
É aqui que a invisibilidade se instala. Não precisamos de deixar de ver alguém para deixar de o ver. Basta começarmos a reconhecer demasiado depressa, e numa organização há ainda uma camada adicional, porque as próprias estruturas podem reforçar aquilo que individualmente já fazemos. Se uma pessoa foi classificada como “difícil”, cada novo comportamento pode ser interpretado a partir dessa etiqueta, se foi considerada “estrela”, os mesmos comportamentos podem receber outra leitura.
A categoria antecede o comportamento e, sem que ninguém tenha necessariamente essa intenção, começa a orientar aquilo que conseguimos ver.
Gregory Bateson, décadas antes de qualquer inquérito de engagement, encontrou uma forma particularmente interessante de pensar situações em que as mensagens que recebemos entram em contradição. Chamou-lhe duplo vínculo. Uma pessoa recebe mensagens incompatíveis entre si e encontra-se numa situação em que qualquer resposta pode ser interpretada como errada.
Pense no gestor que diz “a minha porta está sempre aberta”, enquanto a sua disponibilidade, o seu tom ou a sua agenda comunicam repetidamente o contrário. Ou na família em que se diz “quero que sejas independente”, mas cada tentativa de autonomia é recebida como uma ameaça. Ou numa relação em que alguém afirma “podes dizer-me tudo”, mas reage sistematicamente mal quando ouve aquilo que não queria ouvir.
A questão interessante não é saber qual das mensagens é a verdadeira, mas perceber o que acontece quando aprendemos, através da experiência, que aquilo que é dito e aquilo que é comunicado nem sempre coincidem.
É possível que parte daquilo a que chamamos desligamento seja precisamente isto: não uma ausência súbita, mas uma retirada progressiva de quem já percebeu que, naquele espaço, a sua presença deixou de produzir surpresa. Continua a estar lá, continua a responder, continua a cumprir, continua a participar, mas já não investe a mesma parte de si numa relação em que sente que os outros estão a conversar com uma versão sua que ficou para trás.
E ENTÃO, O QUE FAZEMOS COM ISTO?
Voltemos, mais uma vez, ao início – cem milissegundos. Um décimo de segundo entre o instante em que encontramos alguém e o instante em que começamos a decidir quem é. O eterno paradoxo de passarmos uma vida inteira a chamar “conhecer” a algo que se iniciou muito antes de termos começado, verdadeiramente, a olhar.
Não escrevo este artigo para propor ou insinuar que a solução se encontra em deixarmos de prever, de generalizar ou de construir mapas. Seria pedir ao cérebro que deixasse de ser cérebro. A previsão continuará a chegar primeiro e a questão nunca será impedi-la, mas reparar quando ela já chegou.
Esta consciência dá-nos a oportunidade de adoptarmos gestos simples como o de substituir uma certeza por uma pergunta, um ponto final por um ponto de interrogação. Estarmos atento aos rótulos que colocámos em alguém e duvidar desse rótulo. Trocar “eu sei” por “eu estou curioso”. Não porque a segunda frase seja mais bonita, mas porque é a única que deixa espaço nas nossas representações internas, para o outro nos surpreender.
Isto não pede grandes cerimónias, nem um ritual altamente estruturado, refiro-me a coisas como um segundo antes de terminarmos a frase de alguém na nossa cabeça e colocarmos a conclusão cá fora, voltar a abrir-nos ao outro. Reparar quando respondemos a uma memória e não à pessoa que temos à frente. Como rotina, abrirmos os nossos congeladores para verificar validades e ver se quem lá está, ainda é quem lá pusemos.
Questionar! Que capacidades ainda não vimos? O que mudou? O que estamos a deixar de ver porque já decidimos, há muito, o que esperar?
Esta é a verdadeira fricção cognitiva de que precisamos: não criar mais regras para controlar o que pensamos sobre os outros, mas criar espaço suficiente para que aquilo que pensamos possa ser posto em causa. Na vida, nas relações, no trabalho, na família, em qualquer lugar onde duas pessoas se encontrem, vale a pena desconfiar das conclusões que chegam depressa demais.
O outro está ali, continua a estar ali, inteiro, disponível para ser descoberto de novo. A única pergunta que interessa é se ainda estamos dispostos a olhar, ou se já decidimos, há muito, que já vimos o suficiente...
~ por Joana Sobreiro





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