A ECONOMIA DA CONSCIÊNCIA
- Joana Sobreiro

- há 1 dia
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Atualizado: há 17 horas
Reza a história que, numa manhã de primavera, um mestre conduziu o seu discípulo até às margens de um lago, ainda antes do nascer do sol. Sentaram-se lado a lado e o mestre não disse mais nada. Ao fim de alguns instantes, limitou-se a pedir:
– Olha.
O discípulo obedeceu. Olhou para o lago durante alguns segundos e respondeu:
– Vejo um lago.
O mestre permaneceu em silêncio. Os minutos foram passando e, sem compreender o propósito daquele exercício, o discípulo voltou a olhar. Desta vez reparou que a água reflectia as árvores da margem oposta, que algumas copas eram densas e escuras enquanto outras deixavam passar a luz da manhã, que pequenas ondulações percorriam a superfície ao sabor de uma brisa quase imperceptível. Viu um peixe emergir por um instante, antes de desaparecer.
O mundo parecia ganhar novas camadas à medida que o silêncio se prolongava. O discípulo começou a escutar o que antes não escutara – o som irregular das folhas, o canto distante de um pássaro, a água a deslizar entre as pedras da margem. Sentiu o cheiro da terra húmida, a temperatura do ar a mudar com a chegada do sol, o calor dos primeiros raios sobre a pele.
Era o mesmo lugar, mas já não era a mesma experiência.
Quando o mestre lhe perguntou o que tinha percebido, o discípulo descreveu demoradamente a luz, os sons, as texturas, os cheiros, a dança das sombras. Quando terminou, o mestre sorriu:
— Nada disto apareceu agora. Sempre esteve aqui.
Fez uma pausa.
— A única coisa que mudou foi a qualidade da tua atenção.
Esta história realmente aconteceu? Este mestre e este discípulo alguma vez, de facto, existiram? Não creio que sejam perguntas úteis, pela própria irrelevância das respostas. Com este pequeno conto quis ilustrar uma das características mais extraordinárias da mente humana: o mundo muda quando mudamos a forma como lhe prestamos atenção. Não porque a realidade se transforme, mas porque a nossa experiência dela é construída a partir daquilo que conseguimos trazer para a consciência.
Escrevo isto numa semana de eclipse do sol, que colocou a Península Ibérica a olhar para cima e para o mesmo lado, num alinhamento único entre 1912 e 2144. E foi precisamente por ter feito parte daqueles que não viram os noventa e tal por cento de alinhamento entre os dois luminares do planeta que me senti impelida a escrever sobre uma reflexão que, admito, me acompanha há algum tempo.
William James, considerado por muitos o pai da psicologia moderna, escreveu no final do século XIX, no primeiro volume de The Principles of Psychology, uma frase que continua a ser uma das descrições mais profundas da experiência humana: "A minha experiência é aquilo a que consinto prestar atenção."
Durante décadas, esta foi sobretudo uma reflexão filosófica, depois psicológica e hoje tornou-se, creio, uma questão económica. Pela primeira vez na história, existe uma indústria inteira dedicada a disputar, orientar e rentabilizar aquilo a que prestamos atenção.
Diz-se frequentemente que vivemos na Economia da Atenção, mas cada vez suspeito mais que esta ideia já não descreve completamente aquilo que está a acontecer, pois a atenção nunca foi o objectivo, foi apenas o meio. O verdadeiro território em disputa parece-me ser o espaço da consciência.
Antes de prosseguir, talvez seja útil clarificar aquilo que entendo por consciência neste contexto. Não estou a utilizar o termo no sentido filosófico mais amplo, nem a discutir o chamado "problema difícil da consciência", sobre a natureza da experiência subjectiva. Refiro-me antes ao espaço mental onde determinados conteúdos se tornam presentes para nós, onde sensações, pensamentos, emoções e percepções são experienciados, interpretados e ganham significado.
A atenção e a consciência estão intimamente relacionadas, mas não são a mesma coisa. A atenção funciona como um mecanismo de selecção; a consciência corresponde ao espaço onde essa selecção se torna experiência. Nem tudo aquilo que recebe atenção permanece consciente durante tempo suficiente para adquirir significado, mas praticamente tudo aquilo que molda a nossa visão do mundo precisou, em algum momento, de atravessar esse limiar. É precisamente esse território intermédio que me parece estar a tornar-se um dos espaços mais disputados da nossa época.
Durante milhares de anos, o grande desafio da humanidade foi produzir informação. Hoje o problema é exactamente o contrário: produzimos mais informação do que qualquer cérebro humano consegue integrar.
Em 1971, muito antes da internet estar disponível para todos, o economista Herbert A. Simon escreveu uma frase que talvez seja uma das previsões mais extraordinárias do século XX: "Uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção."
Na altura, Simon pensava sobretudo em organizações inundadas por relatórios. Provavelmente nem ele imaginaria que, cinquenta anos depois, existiriam empresas avaliadas em milhares de milhões de dólares cujo modelo de negócio consiste precisamente em competir por essa atenção escassa.
Quando um recurso se torna escasso, o mercado aprende inevitavelmente a explorá-lo.
Se observarmos a história das civilizações numa escala mais ampla, percebemos que cada época se organizou em torno do controlo do recurso mais estratégico do seu tempo. Durante séculos, o poder esteve associado ao domínio da terra. Com a Revolução Industrial, deslocou-se para o controlo da energia, como o carvão, o petróleo e a electricidade. No final do século XX, o recurso decisivo passou a ser a informação e as sociedades mais competitivas tornaram-se aquelas que a produziam e distribuíam com maior eficiência.
Talvez estejamos agora a assistir a uma nova transição. Talvez a questão já não seja apenas quem controla a informação, mas quem influencia aquilo que cada sociedade aprende a considerar relevante, verdadeiro ou real.
Se esta hipótese estiver correcta, a consciência colectiva está a transformar-se numa espécie de infraestrutura estratégica do século XXI e, tal como aconteceu com os recursos que a antecederam, aquilo que se torna estrategicamente importante torna-se inevitavelmente objecto de competição.
A diferença entre Economia da Atenção e Economia da Consciência parece subtil. Não é. A primeira diz-nos que as empresas e o mercado competem pelo nosso foco. A segunda diz-nos algo bem mais inquietante: aquilo que conquista a nossa atenção ganha a possibilidade de participar na construção da nossa realidade psicológica. Pois aquilo a que prestamos atenção torna-se consciente em nós, aquilo que se torna consciente adquire significado, o significado alimenta crenças, as crenças moldam comportamentos e os comportamentos repetidos ao longo do tempo acabam por construir aquilo a que chamamos identidade.
É neste encadear de pensamentos que suspeito que o recurso económico mais valioso do século XXI não seja a energia, nem os dados, nem sequer a informação, mas a possibilidade de influenciar aquilo que chega à consciência humana.
A maior ilusão do nosso tempo é acharmos que pensamos por nós próprios. Gostamos de acreditar que escolhemos aquilo que lemos, que decidimos aquilo que vemos, que as nossas opiniões resultam de reflexão. Mas será mesmo assim? Antes de respondermos, talvez valha a pena perguntarmo-nos algo mais específico: quem escolheu os temas sobre os quais reflectimos hoje? (confesso que eu própria me interrogo se esta reflexão saiu de mim ou do eclipse, e não sei bem o que responder). Quem decidiu a ordem das notícias no feed? Quem definiu aquilo que merecia a nossa indignação, o nosso medo, o nosso desejo ou a nossa esperança?
Estou convicta de que raramente nos fazemos estas perguntas e se chegou até aqui, aceite este convite para se juntar a mim nesta reflexão, que se propõe ocupar parte do seu tempo, mas sem competir por nenhuma ideia concreta a implantar na sua consciência.
Permita-me então fazer um pequeno desvio e ir à liberdade, para depois voltarmos à consciência.
Grande parte da filosofia política contemporânea construiu-se em torno da ideia de que temos liberdade de escolha. Mas será esta a liberdade mais fundamental? Ou a verdadeira liberdade em discussão é a de decidir aquilo que merece entrar na nossa consciência? Porque ainda antes de nos depararmos com a escolha entre duas alternativas, ocorre algo mais decisivo: a tomada de consciência das alternativas disponíveis. E esse momento anterior à decisão está hoje sujeito a uma competição económica sem precedentes.
Isto é, deixe-me tentar ilustrar: o pai ou a mãe que quer que o filho coma fruta, nunca pergunta se a criança quer comer fruta. Primeiro decide as frutas que serão apresentadas como opção e só depois pergunta: "queres maçã ou pêra?" A verdadeira disputa está na oportunidade de influenciar os conteúdos que chegam ao espaço mental onde as decisões começam a formar-se.
A Economia da Atenção revela aqui a sua natureza – quer colocar no espaço da nossa consciência as "pêras" e "maçãs" definidas previamente, sem a nossa participação.
COMO O CÉREBRO DECIDE AQUILO QUE EXISTE?
Há uma ideia profundamente enraizada na cultura ocidental que nos leva a crer que abrimos os olhos, observamos o mundo e o cérebro se limita a registá-lo, quase como se fosse uma câmara de vídeo. Mas a neurociência diz-nos exactamente o contrário: o cérebro não foi desenhado para reproduzir fielmente a realidade, foi desenhado para garantir a nossa sobrevivência e sobreviver é um problema muito diferente de conhecer.
Enquanto lê estas palavras, milhares de estímulos chegam continuamente aos seus sentidos: a pressão da roupa sobre a pele, o contacto dos pés com o chão, a temperatura do ar, o ruído distante de um carro, a luminosidade da divisão onde se encontra, o sabor que permanece na boca desde a última refeição. Durante todo este tempo, estas informações estiveram presentes, mas muito provavelmente só agora algumas entraram na sua consciência, não porque tenham surgido neste instante, mas por ter lido os exemplos que nomeei e a sua atenção lhes ter aberto passagem.
É precisamente aqui que começa uma das maiores limitações e, simultaneamente, uma das maiores maravilhas da mente humana: não experimentamos a realidade, experimentamos uma selecção da realidade.
Imagine, por um momento, que a sua consciência é um pequeno teatro. No palco só cabe um número reduzido de actores e nos bastidores acumulam-se milhares de candidatos, todos a tentar entrar em cena ao mesmo tempo. São sensações, memórias, pensamentos, emoções, desejos e preocupações... Se todos entrassem em simultâneo, o espectáculo tornar-se-ia uma cacofonia impossível de acompanhar.
O cérebro resolveu este problema com mecanismos de selecção extraordinariamente sofisticados: a rede dorsal da atenção, dirigida por objectivos, a rede ventral, que responde a acontecimentos inesperados e a rede de saliência, que avalia aquilo que poderá ser biológica ou emocionalmente relevante.
Junta-se a estas o Sistema de Activação Reticular (SAR), que participa na regulação do estado de vigília e prepara o cérebro para responder ao que poderá ser importante, não como um filtro mágico, mas como parte de um sistema muito mais amplo. (Se o tema lhe interessar, escrevi sobre isto com mais detalhe aqui.)
Ou seja, o cérebro não pergunta simplesmente "o que existe?", pergunta algo muito diferente: "o que é relevante para mim, neste momento?" e é esta pergunta que muda tudo.
A realidade é demasiado grande para caber dentro de uma cabeça humana. Os sistemas sensoriais captam milhões de unidades de informação por segundo, enquanto a memória de trabalho, o espaço onde o pensamento consciente acontece, consegue manipular apenas um número muito reduzido de elementos em simultâneo. Este é um estrangulamento inevitável, não por incapacidade, mas por eficiência.
Precisamos esquecer para conseguir pensar, ignorar para conseguir decidir, eliminar para conseguir agir. A percepção nunca foi uma fotografia do mundo, mas uma compressão inteligente da realidade, uma versão editada, com uma narrativa suficientemente útil para nos permitir sobreviver.
Não vemos aquilo que existe. Vemos aquilo que o nosso cérebro decidiu que merece existir.
Parece-lhe uma afirmação demasiado forte? Provocadora, talvez? É fácil demonstrar este mecanismo em acção. Lembra-se de quando comprou um carro novo ou andou a pesquisar sobre o carro que queria comprar, e subitamente começou a reparar em dezenas de carros iguais na estrada? Eles apareceram de um dia para o outro? Claro que não. Sempre circularam ao seu lado. O que mudou foi o seu cérebro ter passado a classificá-los como relevantes e a partir desse momento aquilo que antes fazia parte do ruído passou a integrar o seu mapa consciente do mundo.
É assim que funciona a atenção: não acrescenta realidade, reorganiza a realidade disponível.
Muito antes da neurociência conseguir descrever este mecanismo com maior detalhe, a Programação Neurolinguística já postulava sobre este fenómeno, celebrizando a frase de Alfred Korzybski: "o mapa não é o território". (Permita-me mais uma sugestão: se o tema despertar mais interesse, aprofundo alguns destes conceitos aqui.)
Posto isto, talvez exista uma pergunta ainda mais interessante: como nasce esse tal mapa? O mapa não começa nas nossas crenças, nem nos nossos valores, nem sequer na linguagem. Começa muito antes, começa no momento em que determinados estímulos conseguem atravessar o estreito funil da atenção e ocupar um lugar na consciência. Só depois lhes atribuímos significado e construímos interpretações, que darão origem a crenças, identidades e decisões.
Por outras palavras, o mapa começa antes de sabermos que estamos a desenhá-lo.
O MERCADO APRENDEU A FALAR
A LINGUAGEM DO CÉREBRO
Durante muito tempo acreditámos que as empresas competiam entre si através da qualidade dos seus produtos, depois quando se perdem os melhores factores de diferenciação, começam a competir pelo preço. Mais tarde, o branding toma espaço nas estratégias de marketing, através de apelos emocionais e identificação simbólica. Hoje competem por algo muito diferente, ou pelo menos é o que defendo nestes parágrafos, competem pela arquitectura da nossa atenção.
Esta mudança aconteceu de forma tão gradual que quase passou despercebida. Durante décadas, a publicidade tinha um objectivo relativamente simples: interromper. Interrompia um programa de televisão, uma emissão de rádio, a leitura de um jornal. Hoje as plataformas digitais já não precisam de interromper, elas acompanham-nos, observam-nos, aprendem connosco e antecipam-se a nós.
A publicidade deixou de ser uma mensagem e passou a ser um sistema de aprendizagem, onde cada clique, cada segundo adicional de permanência, cada vídeo que termina, cada publicação ignorada, alimenta modelos computacionais cuja única função é responder a uma pergunta: "o que fará esta pessoa permanecer mais alguns segundos?" Repare que a pergunta não é "o que a fará mais feliz?", nem "o que lhe será mais útil?", nem sequer "o que é verdadeiro?". É apenas uma: "o que maximiza a permanência?" Porque na Economia da Atenção, cada segundo representa uma oportunidade de negócio.
O mercado aprendeu uma coisa extraordinária sobre o cérebro humano: não procuramos prazer, procuramos possibilidade. Durante algum tempo popularizou-se a ideia de que somos "viciados em dopamina" – uma explicação apelativa, mas cientificamente redutora. A dopamina não é a molécula do prazer, se fosse, bastaria alcançarmos aquilo que desejamos para permanecermos satisfeitos para sempre. Mas todos sabemos, pela própria experiência, que não é bem assim. A dopamina está muito mais relacionada com a antecipação do que com a recompensa, resulta da expectativa do que poderá acontecer a seguir.
Convém sublinhar que o cérebro humano tem uma relação algo embaraçosa com a novidade. Caso contrário seria difícil explicar porque motivo conseguimos ignorar um pôr-do-sol e interromper uma conversa importante para verificar uma notificação que afinal era publicidade a uma promoção de meias.
O neurocientista Kent Berridge demonstrou precisamente isto ao distinguir duas experiências que, durante muito tempo, confundimos: querer (wanting) e gostar (liking), mostrando que nem sempre aquilo que mais desejamos é aquilo de que mais gostamos.
Pense na última encomenda que fez online. Provavelmente acompanhou o percurso da entrega, recebeu a notificação com entusiasmo, abriu a embalagem com expectativa e, poucos dias depois, aquele objecto já fazia parte da paisagem da sua casa, sem lhe despertar qualquer emoção.
O prazer nunca esteve verdadeiramente no objecto, mas na expectativa do objecto. Foi precisamente aqui que o mercado percebeu como falar a linguagem do cérebro: as recompensas previsíveis perdem rapidamente o seu efeito, porque o cérebro se adapta e a motivação diminui.
Mas existe um mecanismo ainda mais poderoso – a incerteza. A incerteza de nunca sabermos quando surgirá a próxima recompensa, nem qual será, nem sequer se existirá. É essa incerteza que mantém o cérebro em permanente estado de procura.
Durante décadas, este princípio foi explorado pelos casinos e hoje carregamo-lo no bolso. Cada vez que desbloqueamos o telemóvel repetimos, quase sem nos apercebermos, o mesmo comportamento. Talvez exista uma nova mensagem, talvez alguém tenha respondido, talvez apareça uma notícia inesperada, talvez... É esse "talvez" que vale milhares de milhões de dólares, porque é nele que vive a antecipação e é a antecipação que mantém a atenção disponível.
O verdadeiro salto aconteceu quando os algoritmos deixaram de tentar convencer-nos e passaram a tentar compreender-nos. Cada clique, cada pausa, cada deslizar de dedo constitui um dado sobre quem temos maior probabilidade de nos tornar a seguir.
É aqui que a Economia da Atenção se cruza com aquilo que a professora de Harvard Shoshana Zuboff designou por Capitalismo de Vigilância: os nossos dados deixaram de servir apenas para medir preferências e passaram a permitir prever comportamentos e aquilo que pode ser previsto pode, até certo ponto, ser influenciado.
O verdadeiro produto é a capacidade de prever qual será o próximo estímulo capaz de conquistar a nossa atenção.
Sempre que desbloqueamos o telemóvel, inicia-se um processo invisível. Em poucos milissegundos, centenas de sistemas competem entre si para decidir qual será a próxima fotografia, o próximo vídeo, a próxima notícia, a próxima notificação a ocupar o espaço limitado da nossa mente. Cada um desses conteúdos participa num gigantesco leilão cujo prémio é apenas um: ser o próximo pensamento na nossa consciência.
É possível, contudo, que estejamos perante uma mudança ainda mais profunda. Durante os últimos vinte anos, os sistemas digitais procuraram sobretudo seleccionar a informação que nos apresentavam. Com a emergência da inteligência artificial generativa, essa lógica começa a alterar-se: os sistemas já não se limitam a seleccionar conteúdos previamente existentes e passam também a produzir conteúdos novos, personalizados em função das características, interesses, linguagem e vulnerabilidades de cada utilizador. A disputa deixa de ocorrer apenas ao nível da distribuição da informação e passa a ocorrer ao nível da própria produção da realidade informativa.
Durante muito tempo a grande questão consistiu em saber quem controlava os meios de comunicação. Hoje talvez devamos começar a perguntar quem controla os sistemas capazes de gerar versões infinitamente adaptadas da realidade para milhares de milhões de pessoas em simultâneo.
É por tudo isto que acredito que já não vivemos apenas numa Economia da Atenção, mas numa Economia da Consciência. Porque a verdadeira disputa já não é pelo nosso tempo, é pela construção da nossa realidade psicológica.
Costumamos ouvir dizer que os algoritmos nos conhecem, mas não tenho a certeza de que seja essa a melhor formulação. Os algoritmos não sabem quem nós somos. Sabem quem temos maior probabilidade de nos tornarmos se continuarmos a prestar atenção às mesmas coisas. E é precisamente por isso que esta discussão já não pertence apenas ao domínio da tecnologia, do marketing ou da economia e passa a pertencer ao domínio da liberdade, porque quem consegue influenciar, de forma consistente, aquilo que ocupa a nossa atenção, acaba inevitavelmente por participar na construção da pessoa em que nos vamos tornar.
A LIBERDADE NÃO SE PERDE DE UMA SÓ VEZ
Há uma imagem muito romântica da perda da liberdade que paira no nosso imaginário. Imaginamo-la sempre como um acontecimento dramático – um golpe de Estado, a implantação da censura, a repressão de falar. Mas e se a liberdade raramente desaparecer dessa forma? Se fosse assim tão dramática, provavelmente não deixaríamos que acontecesse e opor-nos-íamos veementemente. Talvez por isso, a forma mais eficaz de limitar a liberdade não seja impedir alguém de pensar, mas impedir alguém de sustentar um pensamento durante tempo suficiente.
Fui clara no que estou a procurar articular? Para mim existe uma enorme diferença entre estas duas coisas. Uma sociedade onde as pessoas não podem pensar ou falar determinadas coisas é uma ditadura. Mas uma sociedade onde as pessoas já não conseguem manter a atenção sobre uma ideia complexa durante mais de alguns minutos pode continuar a considerar-se perfeitamente livre. Mas sê-lo-á, de facto?
Sei que não me vê, mas deixe-me dizer-lhe – estou a rir (de nervos) enquanto escrevo este parágrafo. Quando uma criança interrompe constantemente um adulto, dizemos que ainda não aprendeu a regular-se. Quando um adulto interrompe o próprio pensamento de trinta em trinta segundos para verificar uma notificação, chamamos-lhe produtividade.
Seria interessante começarmos a chamar-lhe outra coisa. Sugiro: treino. Porque é exactamente isso que acontece. O cérebro aprende aquilo que repetidamente pratica. Se todos os dias treinarmos interrupção, novidade, velocidade e recompensa imediata, não estamos apenas a criar hábitos digitais, estamos a moldar circuitos neuronais, a ensinar o cérebro qual é a forma "normal" de funcionar. E aquilo que hoje parece apenas um comportamento acaba, lentamente, por se transformar numa forma de estar no mundo.
A neurociência explica bem o fenómeno da neuroplasticidade: neurónios que disparam juntos tendem a ligar-se juntos. Aquilo que repetimos fortalece-se e aquilo que deixamos de utilizar enfraquece. Isto significa que a atenção também se treina e treina-se sempre, mesmo quando não temos essa intenção. Treina-se quando lemos um livro durante uma hora sem interrupções e treina-se também quando alternamos, compulsivamente, entre cinco aplicações diferentes em menos de dois minutos. É esta, suspeito, a consequência mais invisível da Economia da Consciência: ela não altera apenas aquilo em que pensamos, altera a forma como pensamos.
Durante séculos, o conhecimento foi associado à profundidade. Hoje é frequentemente substituído pela exposição. Sabemos um pouco sobre tudo e permanecemos pouco tempo em quase tudo. Nunca tivemos acesso a tanto conhecimento e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos dedicado tão pouco tempo a compreendê-lo.
Há uma ironia extraordinária em tudo isto – nunca tivemos tanta liberdade para escolher conteúdos e nunca houve tantos sistemas dedicados a escolher conteúdos por nós. Não através da imposição, mas através da sugestão. Afinal, quem recusaria uma sugestão aparentemente personalizada?
É precisamente aqui que a liberdade começa a tornar-se uma ideia mais complexa, porque a maior parte das influências que moldam a nossa consciência não chega sob a forma de ordens. Chega sob a forma de recomendações.
Enquanto escrevia este parágrafo, apercebi-me de que estava, sem querer, a tratar duas ideias como se fossem uma só e talvez valha a pena separá-las aqui, com honestidade. Por um lado, defendo que o cérebro decide por nós, em larga medida, o que existe, e que o mercado aprendeu a explorar essa decisão de forma cada vez mais precisa. Por outro lado, vou pedir-lhe, daqui a poucos parágrafos, que exerça precisamente a liberdade de escolher onde pousa a atenção. Estas duas ideias não se anulam. Coexistem em tensão e é provavelmente nessa tensão, não fora dela, que se joga tudo o resto.
Não temos controlo total sobre aquilo que primeiro capta a nossa atenção, mas talvez tenhamos alguma margem, real ainda que limitada, sobre o que fazemos depois de repararmos nisso. É pouco. Mas talvez seja suficiente para que a pergunta que se segue continue a valer a pena.
Volto então ao pressuposto da PNL – "o mapa não é o território" – para perguntar: quem desenha o mapa?
Se o mapa nasce daquilo que atravessa o crivo da atenção, então cada estímulo repetido, cada narrativa reforçada, cada emoção amplificada vai desenhando, lentamente, a forma como interpretamos o mundo. Não precisamos de mentiras para alterar uma percepção, basta repetir-se suficientemente uma parte da realidade e omitir sistematicamente as restantes, e o mapa altera-se, mesmo que o território permaneça exactamente igual.
É por isso que acredito que o maior risco da Economia da Consciência não é produzir pessoas menos informadas. É produzir pessoas profundamente convencidas de que estão a ver toda a realidade, quando, na verdade, estão apenas a observar a pequena parcela que conseguiu conquistar a sua atenção.
Durante séculos, a principal escassez foi material. Mais tarde tornou-se energética. Depois, informacional. Hoje começa a emergir uma nova forma de escassez: a capacidade humana de discernimento consciente.
Num mundo onde a informação é abundante, aquilo que verdadeiramente se torna raro não é saber mais, é conseguir distinguir o que merece ser pensado.
Até aqui tenho falado sobretudo da consciência individual, mas há um outro fenómeno igualmente relevante que está a acontecer numa escala mais ampla. As mesmas tecnologias que competem pela atenção de uma pessoa influenciam simultaneamente milhões de pessoas e quando isso acontece, aquilo que parece uma experiência individual transforma-se gradualmente num fenómeno colectivo.
Narrativas repetidas em larga escala podem amplificar emoções sociais, reforçar identidades grupais, aumentar a polarização, definir agendas públicas, moldar a percepção que comunidades inteiras desenvolvem sobre acontecimentos políticos, económicos ou culturais.
Em muitos momentos da História, o poder esteve associado à capacidade de controlar a circulação da informação. Hoje começa a emergir uma forma diferente de influência: a capacidade de modular os processos através dos quais a informação ganha relevância psicológica dentro das sociedades.
A disputa pela consciência já não diz respeito apenas ao que cada indivíduo vê , mas ao que populações inteiras aprendem a considerar importante, urgente, desejável, ameaçador ou verdadeiro. Talvez por isso esta discussão não pertença exclusivamente ao domínio da tecnologia ou da economia. Pertence também à geopolítica, à democracia e ao futuro das sociedades abertas.
RECUPERAR A SOBERANIA
Ao longo deste artigo procurei defender uma ideia que, admito, ainda estou a tentar compreender em toda a sua profundidade: suspeito que o nosso maior desafio seja sabermos escolher melhor. Isto é, escolhermos com intencionalidade, consciência, amplitude perceptiva, espírito questionador e, sobretudo, saber dizer não. Saber dizer: "a isto não vou prestar atenção." Porque cada vez que dizemos "sim" a um estímulo, estamos, inevitavelmente, a dizer "não" a todos os restantes.
A atenção nunca foi apenas uma capacidade cognitiva. Sempre foi também uma escolha – parcial, disputada, mas ainda nossa.
Por essa razão preciso de falar de mindfulness, mas não com as definições que normalmente lhe atribuímos. Habitualmente apresentamo-lo como uma técnica para reduzir o stress, para promover o bem-estar ou para gerir a ansiedade, e isso é verdade, mas é também insuficiente. Na sua essência, mindfulness é a capacidade de recuperar um espaço de liberdade entre o estímulo e a resposta. É voltar a escolher, deliberadamente, aquilo que merece ocupar a nossa consciência. É deixar de viver apenas em modo reactivo. É reparar! Porque só aquilo que conseguimos observar pode ser verdadeiramente escolhido, enquanto tudo o resto se limita a acontecer.
As tradições contemplativas, muito antes da neurociência existir, colocavam grande importância na observação da mente, não porque procurassem fugir da realidade, mas porque compreenderam uma coisa extraordinária: aquilo que observamos deixa de nos possuir por completo.
Quando nos apercebemos de que um pensamento é apenas um pensamento, ganhamos a possibilidade de decidir se o seguimos ou não. Quando nos apercebemos de que uma emoção é apenas uma emoção, ela deixa de comandar automaticamente o comportamento. Quando nos apercebemos de que uma notificação é apenas uma notificação, recuperamos a possibilidade de a abrir ou de a ignorar.
Acho que encontrei a palavra mais importante de todo este artigo: escolha. Não uma escolha absoluta – já vimos que não o é – mas uma escolha real, exercida no pequeno espaço que ainda nos pertence entre o estímulo e a resposta.
Ao longo de todos estes parágrafos falei de um conjunto vasto de coisas, mas sempre quis chegar aqui: tenho estado, no fundo, a escrever sobre responsabilidade, sobre soberania individual. Porque nenhum algoritmo pode obrigar-nos a pensar, pode apenas disputar a oportunidade de captar a nossa atenção. A decisão final, ainda que condicionada, continua a pertencer-nos. Esta soberania sobre o espaço da nossa mente exige a capacidade de dirigir conscientemente a própria atenção.
No início deste texto contei-lhe a história de um mestre que levou um discípulo até à margem de um lago. Nada apareceu naquele lago que não tenha estado sempre lá. Apenas a atenção mudou.
Talvez aconteça exactamente o mesmo com a vida. A realidade continua, silenciosamente, à nossa frente e a liberdade de decidirmos aquilo que merece entrar na nossa consciência é o local onde começam todas as outras liberdades.
Não sei se cheguei a algum lugar com este artigo ou se apenas dei várias voltas ao mesmo lago. Talvez seja a mesma coisa.
Termino onde comecei. O mestre nunca mostrou nada ao discípulo, não lhe ensinou uma teoria, não lhe deu uma explicação. Apenas lhe devolveu a atenção. E a atenção, suspeito, é o lugar onde a liberdade começa ou termina, consoante para onde a deixamos ir, sem reparar.
Será que ainda sabemos distinguir aquilo que escolhemos observar daquilo que fomos levados a observar?
~ por Joana Sobreiro




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