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PERCEPÇÃO SELECTIVA

Sabia que dentro da sua cabeça vive uma antena muito selectiva na escolha dos seus canais? É um misto de porteiro e assistente pessoal que só abre a porta e deixa entrar visitantes que já foram identificados como importantes ou quem já é cliente habitual.


Já lhe aconteceu estar a ler o livro de um autor, até então, desconhecido para si e, de repente, encontra uma entrevista com esse autor, percebe que um colega de trabalho é super fã desse autor e que no café alguém desconhecido também o anda a ler? Ou aprendeu uma nova palavra e, de um momento para o outro, lê-a e escuta-a em todos os lugares?

Já teve a experiência de andar a “namorar” um novo carro e lhe parecer que todos os humanos da terra resolveram comprar um? Conhece aquela história de que uma mulher quando engravida ou pensa engravidar, só vê grávidas e bebés em cada esquina?

E aquele lugar que está cheio de vontade de conhecer, já lhe entrou pela vida dentro, por um episódio da série que anda a ver ou pelo relato do seu vizinho que acabou de voltar de umas férias lá?

Conto-lhe algo que aconteceu comigo muito recentemente. Há cerca de 2 ou 3 semanas, quando estive a estudar para escrever sobre intenções positivas, cruzei-me com um conceito muito interessante e até então desconhecido para mim. Foi o tema do último artigo que escrevi para o blog, a Navalha de Hanlon (link) e logo depois de o ter escrito, no espaço de 1 semana, ouvi-o mencionado numa palestra de um professor de filosofia epistemológica, escutei-o numa apresentação de um cientista químico que investiga a origem do universo e ainda o ouvi referido num podcast de dois comentadores políticos. Será que andaram todos a ler o meu artigo? Não me parece!... o tema é que entrou, totalmente, no meu “radar”.

Pois saiba que, com estes exemplos, lhe quero mostrar que este inquilino tem um nome e em cada um de nós, habita um. O Sistema de Activação Reticular (SAR) é o morador cerebral, que todos possuímos.


O Sistema de Activação Reticular é uma pequena parte do nosso cérebro que desempenha um papel muito importante e fundamental na orientação do nosso foco e atenção.

Ao longo de um só dia, os nossos cérebros recebem milhares de milhões de distintas informações, provenientes das mais diversas fontes, cuja neurologia não consegue processar e armazenar todas elas. Felizmente temos um gestor de conteúdos que só deixa passar a informação que foi convidada. O SAR filtra as informações que considera importantes e só deixa essas entrar. É ele o responsável por organizar a enormidade de informações que nos chegam a cada momento.

Daí podermos, ainda antes de nos aprofundarmos no tema, concluir que temos uma compreensão sectária, parcial e tendenciosa do mundo, e possuir esta percepção selectiva, significa que podemos apenas experimentar conscientemente uma parte da realidade, mais especificamente, uma porção muito pequena.

A nossa neurologia, através dos nossos canais sensoriais, pode ver, ouvir, sentir, cheirar e provar inúmeras coisas ao seu redor, mas percebe uma parte muito reduzida de forma consciente. Essa pequena fracção é o que compõe o nosso mapa do mundo e é com esse mapa que navegamos o território.


Até aqui sei que ainda não lhe disse muita coisa nova! Se tem acompanhado os meus últimos artigos, sobretudo o do Modelo de Comunicação da PNL (link) e o da Percepção é Projecção (link), até agora, acrescentei pouca coisa. Mas já lá iremos. Por agora, saiba que se volto a este tema é porque não quero apenas que conheça os mecanismos da sua percepção, mas que tenha uma forma de direccionar a sua atenção para o que deseja e, consequentemente, criar mapas mais alinhados com o que quer viver.



FORMAÇÃO RETICULAR E O SISTEMA

ACTIVADOR RETICULAR ASCENDENTE



Como referi anteriormente, este inquilino está alojado dentro das nossas cabeças, pois é parte dos nossos mecanismos cerebrais.

Descrito como uma das partes mais primitivas e filogeneticamente antigas do nosso cérebro, a formação reticular modula a actividade de praticamente todos os outros sistemas cerebrais, pois está conectada a todo o sistema nervoso central. A principal função desta região encefálica é a activação do córtex cerebral.

Do ponto de vista electrofisiológico, a formação reticular é uma região localizada acima da espinal medula, com cerca de 5 cm de comprimento e a largura de um lápis, que através do diencéfalo controla a actividade eléctrica cortical, por via ascendente, enquanto que as vias descendentes, influenciam o sistema nervoso autónomo.

A formação reticular está relacionada e influencia os ciclos do sono, e o despertar, filtrando também os estímulos sensoriais, fazendo a triagem daqueles que são relevantes e separando-os dos irrelevantes.

Já o Sistema Activador Reticular Ascendente (SARA) é a entidade reguladora do estado de vigília. Quando sinais sensitivos externos, como um som de forte intensidade, chegam ao córtex, descem à formação reticular e sobem, retornando ao córtex, devolvendo-nos ao estado de vigília, no caso de estarmos a dormir, ou ao estado de atenção, no córtex pré-frontal, caso já estejamos acordados. Significa isto, que as percepções apenas se tornam conscientes quando o córtex é estimulado por impulsos contínuos procedentes da formação reticular.

No fundo, este mecanismo cerebral a que damos o nome de Sistema de Activação Reticular é o que conecta a parte inconsciente, com a parte consciente dos nossos cérebros. Visto ter o papel de regular o estado de sono-vigília, a reacção de luta ou fuga e a percepção consciente dos estímulos sensoriais, serve para nos ajudar a responder ao mundo ao nosso redor. A percepção consciente do mundo exterior, bem como a de nós mesmos, resulta do grau de alerta em que nos encontramos e este é coordenado por esta estrutura cerebral.


É o SAR que permite que possamos estabelecer um foco e criar um filtro em torno desse mesmo foco. Com isto, os dados que não são importantes são eliminados e, apenas os que são válidos para os nossos interesses, nos são apresentados. Todo este processo ocorre, totalmente, fora do espaço da nossa consciência, numa velocidade de processamento que escapa à nossa percepção. Simplesmente acontece, por se tratar de uma espécie de programação automática que opera a nosso favor, sem que precisemos de fazer alguma coisa para que ocorra.


Se não fosse este nosso “porteiro mental”, seríamos inundados de informações de toda a espécie, cuja quantidade se tornaria impossível de lidar. É então, graças ao SAR que podemos omitir informação e com isso, dirigir a nossa atenção.

Curiosamente, o SAR não é apenas um funil de quantidade de informação, é também um crivo que procura no ambiente as informações que são úteis, conformes e que validam as nossas crenças. Quer isto dizer, que este sistema filtra o mundo de acordo com os parâmetros que nós mesmos criámos.

Por exemplo, se acredita ser muito eficiente no seu trabalho, o seu SAR irá processar e organizar a informação para que trabalhe de forma eficiente, ajudando-o a ver o que precisa ser visto, influenciando as suas acções e assim produzindo os resultados em conformidade com a sua crença.

O mais interessante é sabermos que, já que ele responde aos nossos filtros inconscientes, podemos então usá-lo a nosso favor, alinhando-o com o que queremos criar nas nossas vidas.



O ESTADO DO SEU SAR


Visto o Sistema de Activação Reticular ser o mecanismo que determina por onde anda a nossa atenção e o que, a cada momento, se torna consciente para nós, é importante questionarmo-nos por onde temos andado com a nossa mente.

Como avalia o seu estado actual nos diversos contextos da sua vida? O seu SAR está a potenciar ou a enfraquecer os resultados que tem produzido? O mundo parece-lhe um lugar cheio de possibilidades ou de dificuldades?

Por onde tem andado a sua mente consciente? Pensa maioritariamente em coisas positivas ou negativas? Alimenta diálogos internos que o motivam ou sabotam?

Que tipo de informação tem consumido? Tem sabido das maravilhas que acontecem todos os dias no mundo ou só sabe das desgraças?

Como tem visto as pessoas à sua volta? São pessoas boas ou más? Interessantes ou enfadonhas?

Como se percebe? Vê maioritariamente as suas competências, potencialidades e recursos ou, pelo contrário, só vê defeitos, fracassos e o que lhe falta?

Responder a estas questões é mesmo muito importante para que possa saber se se tem concentrado, principalmente, nos aspectos que contribuem para que viva a vida que deseja ou, se pelo contrário, o seu SAR só lhe traz visitantes indesejados.

Coloque a sua atenção em problemas e veja a negatividade tomar conta da sua vida. Dirija a sua atenção para tudo o que de bom e positivo tem na sua vida e veja as coisas a fluir. Saiba que o seu SAR não faz julgamentos de certo ou errado, de bom ou mau, de positivo ou negativo, ele só lhe dá mais daquilo que anda a povoar a sua mente.


Independentemente do que tenha respondido, o mais relevante é que saiba que o SAR pode ser programado. Ele opera automaticamente, mas podemos treiná-lo e ajustá-lo para que ele deixe passar a informação que representa uma oportunidade e que nos capacita para realizarmos o que desejamos. Ou seja, é possível instruir o “porteiro” sobre quem, exactamente, queremos que entre, de forma a que a nossa mente inconsciente trabalhe em conjunto com a nossa percepção consciente.



EXERCITAR E ORIENTAR O SAR


Como já ficou claro, é o SAR o responsável pela regulação da atenção e por proporcionar uma melhor consciência do mundo ao nosso redor. Então a pergunta é: como o mantemos activo, a fim de garantirmos que se conserva focado no que potencia a nossa existência?


ALINHE A COLUNA: Visto estarmos a falar de uma região física do cérebro, é importante assegurarmos que lhe damos as melhores condições de funcionamento. Quer isto dizer, que qualquer desalinhamento na coluna, sobretudo na região cervical, pode causar compressão no tronco cerebral, afectar o fluxo sanguíneo e, consequentemente, a oxigenação, impedindo que o SAR funcione na sua melhor capacidade. Assim, assegure-se de que mantém uma postura vertical, as suas vértebras alinhadas e a coluna erecta.


MOVA O GLOBO OCULAR: Outro elemento físico digno de nota, é sabermos que esta estrutura cerebral está também conectada ao sistema visual, pelo que exercitar o nervo óptico, para que se mantenha flexível é, igualmente, importante. Um bom exercício é rodar os olhos, fazendo a forma do infinito.


USE A RESPIRAÇÃO: Como lhe estou a apresentar possíveis exercícios que pode praticar, sugiro que leia o meu artigo Respirar pelo Nariz (link), onde poderá ter uma melhor noção da importância e dos benefícios de fazer uma respiração, exclusivamente, nasal.

Ainda no trabalho com a respiração, poderá praticá-la, pontualmente, de outra forma. Com a coluna alinhada e sem a mover, inspire pelo nariz e expire, prolongadamente, pela boca, projectando a língua, o mais possível, para fora. Como costumo dizer aos meus alunos: como se quiséssemos tocar com a ponta da língua nos pés.


PRATIQUE ATENÇÃO PLENA: As práticas de mindfulness devem ser privilegiadas quando se trata de focar a atenção e é, sobretudo, muito eficaz a interromper a ruminação de pensamentos. Ao conquistar uma maior quietude através de práticas meditativas, libertará o seu SAR do foco excessivo nos perigos.


Acrescido a todos estes exercícios, é também importante que investigue as suas crenças limitadoras. Visto o SAR deixar passar os elementos que corroboram aquilo em que acredita, as crenças que inibem, impossibilitam e limitam uma vida mais congruente e na direcção do que quer, podem ser mudadas.

Para aqueles que, como eu, trabalham com a programação neurolinguística, sabem que a forma mais efectiva e eficaz de orientar o Sistema de Activação Reticular é fazendo convergir a matéria inconsciente com os pensamentos conscientes. Para isso, é necessário determinar a direcção, definir intenções e instalar um novo programa, vulgo, um objectivo.

Então, comece por ter clareza sobre o seu estado desejado, o que quer para si e para a sua vida, e defina um objectivo. Tenha um entendimento sobre o resultado que deseja com a realização desse mesmo objectivo. Depois, imagine-se como se já tivesse o seu objectivo realizado. Observe as imagens, sons e sensações. Visualize cada pormenor, como que já estivesse na posse do resultado e, sobretudo, sinta as sensações. Deixe que o seu SAR saiba o que é importante para si neste momento.


~ por Joana Sobreiro




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