QUANDO A IA NOS EXPÔE...
- Joana Sobreiro

- há 2 dias
- 6 min de leitura
Já observou um oleiro a trabalhar? Quem nunca experimentou mexer no barro, imagina que o segredo da olaria está nas mãos. Mas curiosamente não está, está na forma como lemos o barro.
Um bom oleiro sabe quando pressionar, quando aliviar, quando acrescentar água, quando esperar, sabe até quando deve aceitar que aquela peça nunca será exactamente aquilo que tinha imaginado.
É belíssima a relação de escuta entre o artesão e a matéria, e talvez seja precisamente isso que distingue um mestre de alguém que apenas domina a técnica.
Depois da peça moldada e seca, chega o momento desta ir para o forno. E o mais interessante? O forno não melhora o trabalho do oleiro, apenas o revela.
Se no decorrer da modelação da peça criámos tensões na argila, elas vão aparecer em forma de peça empenada, se deixámos bolhas de ar, elas vão rebentar, se a estrutura estava desequilibrada, a peça racha... O forno não cria defeitos, torna-os impossíveis de esconder.
Entretanto saio da olaria e imagino um futuro não muito distante...
Imagino-me a entrar numa empresa e a ser recebida por um avatar, que me encaminha para ser atendida por um chatbot, para discutirmos uma proposta comercial que foi escrita por um LLM, que teve em conta os objectivos descritos no plano estratégico que foi gerado por um outro. As avaliações de desempenho são automáticas e as reuniões são resumidas por um algoritmo. Os emails são lidos por um assistente virtual e respondem-se sozinhos. As apresentações aparecem feitas em segundos. E no fim, pergunto: E as pessoas? E respondem-me: Estão todas ocupadas a validar aquilo que a inteligência artificial fez.
Achou este meu exercício de imaginação demasiado esdrúxulo? Caricato? Ridículo ou descontextualizado? Pois para mim, a pergunta que realmente importa é exactamente esta: e as pessoas?
Será que queremos organizações onde o papel das pessoas se reduz a validar aquilo que a IA produziu? Queremos líderes cuja principal competência seja confirmar respostas geradas por um algoritmo? Se for esse o futuro que estamos a construir, então o risco não é a tecnologia, mas a pobreza da nossa ambição sobre aquilo que significa ser humano.
Desde o início deste ano que o tema IA está na boca do mundo corporativo e me persegue (ou eu ando atenta!), tem estado presente em conversas, reuniões, sessões de trabalho e formações. Mas os moldes em que este tema tem sido colocado, sinceramente, aborrecem-me...
Sou obviamente tendenciosa, mas o tema não é a adopção da inteligência artificial, é quando é que vamos finalmente aprender sobre pessoas.
É que suspeito que a IA seja o novo forno das organizações! Não vem corrigir culturas, não vem aperfeiçoar lideranças, nem vem reestruturar empresas mal desenhadas. Virá apenas acelerar e revelar aquilo que já existe.
Ainda assim, sempre que se fala de inteligência artificial, a conversa acaba quase inevitavelmente no mesmo lugar: "Quantos empregos vão desaparecer?"; "Que profissões serão substituídas?"; “Como manteremos a carteira de clientes, quando estes souberem e puderem fazer aquilo que antes lhes vendíamos?”; “Como mantemos margens e receita, quando os clientes souberem que o nosso trabalho está muitíssimo mais facilitado e já não conseguimos justificar o preço?”; "Será a IA uma ameaça às pessoas?"... São todas perguntas compreensíveis e legítimas, mas parece-me que estes questionamentos escondem uma reflexão muito mais interessante: e se a IA não vier substituir pessoas, mas vier substituir tudo aquilo que lhes retirou a possibilidade e o tempo para serem pessoas?
Pois sejamos honestos, durante décadas muitas organizações pediram às pessoas exactamente aquilo que hoje uma máquina faz melhor, isto é, repetir processos, seguir procedimentos, preencher relatórios que ninguém lê, produzir apresentações para reuniões que nunca deveriam ter existido e responder a emails cuja única utilidade é provar que alguém respondeu ao email anterior.
Convenhamos que se este é o valor que uma pessoa acrescenta a uma organização, então o problema não começou com a inteligência artificial. Começou muito antes, começou quando confundimos trabalho com execução e liderança com controlo.
É aqui que reflectir sobre IA me desperta interesse e, eventualmente, torna o diálogo incómodo.
A IA não ameaça quem é humano, ameaça quem passou anos a trabalhar como uma máquina, quem reduziu o seu contributo à repetição, quem se tornou previsível, quem executa sem pedir contexto e obedece sem pensar ou questionar.
Este ponto deveria preocupar-nos mais enquanto líderes do que enquanto trabalhadores, apesar das possíveis consequências terem responsabilidade partilhada, seja por acção ou omissão. Mas coloco intencionalmente a lupa nas lideranças, porque talvez tenham sido os gestores, as chefias, os verdadeiros responsáveis por se terem desenhado organizações onde tantas pessoas deixaram de pensar, de decidir, de criar e de questionar.
Se discreta e paulatinamente, uma parte significativa do mundo do trabalho foi treinando pessoas para funcionarem como algoritmos, não será de grande surpresa preocuparmo-nos quando surge um algoritmo melhor. Mas há aqui uma ironia difícil de ignorar, a IA não está apenas a desafiar trabalhadores, está sobretudo a desafiar líderes.
Para ser mais rigorosa vou dizer isto de outra forma – está a expor líderes!
Talvez o maior erro seja pensarmos que estamos perante uma revolução tecnológica, mas afinal fomos postos diante de uma revolução de liderança.
Durante décadas gestores puderam esconder fragilidades de liderança atrás do crescimento económico, da escassez de talento ou da complexidade operacional. Hoje começa a deixar de ser possível, porque a tecnologia impõe uma nova pergunta: se a máquina trata das tarefas, qual passa a ser o verdadeiro trabalho da liderança?
Com esta pergunta a conversa muda de rumo, porque liderar deixa de ser distribuir trabalho, controlar a sua execução ou garantir que toda a gente cumpre procedimentos.
Na verdade, se este for o papel de um gestor, receio más notícias e a sua obsolescência! Pois há uma boa probabilidade de a IA vir a fazer uma parte significativa desse trabalho.
Aquilo que a IA dificilmente fará será criar confiança, ler uma sala onde ninguém diz aquilo que realmente pensa, perceber que uma equipa aparentemente alinhada está emocionalmente desligada, gerir dilemas onde não existem respostas certas, criar numa equipa um sentido de pertencimento, construir compromisso, desenvolver pessoas, inspirar, dar significado, criar cultura...
Dificilmente substituirá a capacidade de reconhecer potencial antes deste produzir resultados, dar feedback que desafie sem humilhar, tomar uma decisão impopular porque é a mais justa, manter uma equipa unida depois de um fracasso, lidar com conflictos onde ambas as partes têm razão, criar segurança psicológica para que alguém tenha coragem de dizer "não concordo", inspirar uma visão que ainda não existe ou mobilizar pessoas para um objectivo que obrigue a mais do que um contrato, exija convicção.
E desse lado, quem me lê, poderá estar a pensar: “Joana estás enganada! Liderar nunca foi gerir tarefas. Há quase 1 século que Elton Mayo abriu caminho para sabermos que liderar é desenvolver capacidade humana...”, ao que eu respondo: então talvez nos tenhamos esquecido disso!
Com tudo isto, quero apenas reposicionar a discussão sobre o ruma da IA e podermos falar sobre discernimento, ética, governação, responsabilidade, confiança e julgamento humano. Não porque esteja a sugerir ignorarmos a tecnologia ou impedirmos que continue a evoluir, mas porque me parece que finalmente podemos perceber que o verdadeiro risco não está na inteligência das máquinas, mas na pobreza dos sistemas humanos que as utilizam.
Por esse motivo, acredito que muitas organizações continuam a fazer a pergunta errada, ao questionarem como implementam inteligência artificial. Talvez a pergunta deva ser: "Que organização queremos construir quando a IA fizer tudo aquilo que não exige humanidade?"
Provavelmente a resposta não está no departamento de IT, no fornecedor da ou das plataformas, nem no próximo modelo generativo – está na liderança! Porque implementar IA é, antes de tudo, redesenhar uma organização, é sabermos exactamente que parte da organização queremos que se mantenha humana.
É redesenhar o sistema de governação, clarificando quem decide, com que critérios e em nome de quê.
É redesenhar o sistema de gestão, abandonando modelos construídos para controlar pessoas, substituindo-os por modelos que desenvolvem autonomia, responsabilidade e colaboração.
É redesenhar o sistema de desenvolvimento humano, porque aquilo que cria verdadeiro valor deixou de ser apenas o conhecimento que as pessoas acumulam e passou a ser a forma como pensam, se relacionam, aprendem, decidem e constroem significado em conjunto.
Adoro chegar aqui! Talvez o maior paradoxo deste momento histórico seja este: quanto mais inteligente se torna a tecnologia, mais sofisticada terá de se tornar a liderança.
A IA amplifica aquilo que já existe. Se existir clareza estratégica, aumenta-a, se existir uma cultura forte, reforça-a, se existir confiança, acelera-a. Mas também amplifica desorganização, medo, ambiguidade, lideranças frágeis e culturas disfuncionais.
Tal como o forno do oleiro que nunca corrige uma peça mal construída, apenas a revela, a tecnologia faz exactamente o mesmo com as organizações, não corrige sistemas humanos, vai expô-los.
Por tudo isto, suspeito que a verdadeira vantagem competitiva dos próximos anos não será tecnológica, mas profundamente humana.
As organizações que irão prosperar não serão necessariamente aquelas que integrarem as melhores ferramentas e soluções de IA, serão aquelas que melhor compreenderem as pessoas.
Acho que, pela primeira vez em muito tempo, já não podemos fingir que liderar pessoas é um detalhe da gestão, pois passou a ser o centro da estratégia.
É olaria! Porque liderar pessoas nunca foi moldá-las, foi criar as condições para que cada uma encontre a sua melhor forma.
O paradoxo é este: quanto mais inteligente se torna a tecnologia, mais artesanal terá de se tornar a liderança.
São os tempos do líder-artesão.
Bem-vindos à nova era de crafting leadership!
~ por Joana Sobreiro




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