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SÍNDROME DO IMPOSTOR

“Sou uma farsa!...” Em algum momento já se sentiu assaltado por este pensamento?

Já experimentou a sensação de não ser merecedor do sucesso resultante de alguma realização sua? Como recebe elogios? Agradece sinceramente ou tem uma voz interna que lhe diz “que exagero”? O seu trabalho árduo nunca é tão custoso como o dos outros, logo não tem exactamente o mesmo valor? Falta-lhe sempre um bocadinho para estar pronto? Precisa sempre de mais um curso, mais um livro ou mais uma informação para dominar um assunto? A relva do vizinho é sempre mais verde do que a sua? Expor-se em público para falar de um tema do seu domínio é um convite para uma descida ao inferno? As suas conquistas são fruto da sorte?


Se dentro de si existir um sabotador é provável que tenha respondido “sim” a algumas destas questões... Se está a ser morada do boicote, certamente que já teve a desagradável sensação de sentir que não passa de um impostor.

Diversas pessoas, na actualidade, lidam com um sentimento de que estão a enganar toda a gente e que em algum momento irão ser desmascaradas, e todos saberão que é uma fraude.

Pois saiba que, se assim é, está a reunir dentro de si um conjunto de malabarismos mentais para se travar e isso tem um nome, chama-se Síndrome do Impostor.


Apesar de se tratar de uma temática explorada e estudada dentro da psicologia, e ser portadora do nome síndrome, não tem características clínicas para ser assim denominada, não lhe são atribuídas características de distúrbio de saúde mental reconhecido no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), não se trata de uma doença, nem de um transtorno psiquiátrico, mas de um fenómeno psicológico manifesto num sentimento nem sempre, facilmente, identificado por quem o vive e muito comum, principalmente, entre profissionais.


Trata-se de um conjunto de distorções cognitivas, que produzem maneiras deformadas de interpretar informações que se pensam realidade, fundadas em crenças de incapacidade, inutilidade, incompetência e desmerecimento, onde poderá ser encontrado também o comprometimento da auto-estima.


A Síndrome do Impostor foi uma designação ou terminologia criada em 1978 por duas psicólogas pesquisadoras da Universidade do Estado da Geórgia nos EUA, Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, num artigo publicado por ambas com o nome The Imposter Phenomenon in High Achieving Women.

Neste primeiro artigo que deu atenção a este fenómeno, os alvos de estudo foram mulheres. As dinâmicas familiares da década de 1970 e o papel da mulher no mundo do trabalho, fez com que se investigassem 150 mulheres profissionalmente bem sucedidas, cujo resultado mostrou que todas elas se sentiam impostoras, independentemente dos seus títulos académicos, funções hierárquicas ou do seu nível de responsabilidade.

Já na década de 1980, a psicóloga Gail Matthews, da Universidade Dominicana da Califórnia, juntou-se a Pauline Rose Clance para novas pesquisas. Dos seus novos trabalhos de investigação, concluíram que tanto mulheres, quanto homens já tinham tido episódios da Síndrome do Impostor no decorrer das suas carreiras profissionais, sendo algo que atinge os dois sexos igualmente e em diversos níveis.

Segundo o International Journal of Behavioral Science, mais de 70% das pessoas são afectadas por pensamentos impostores no seu trabalho, em algum momento das suas vidas.


Esta experiência de inferioridade ilusória é um mecanismo psicológico de defesa, muitas vezes também apresentado como o oposto do Efeito Dunning-Kruger. Este último é considerado um viés cognitivo através do qual uma pessoa que apresenta um baixo domínio de uma competência, é incapaz de o reconhecer e superestima as suas habilidades.

Já na Síndrome do Impostor as pessoas sofrem de forma permanente ou temporária, frequente ou pontual de uma percepção de que são pouco capacitadas, subestimando as suas próprias habilidades e incapazes de reconhecer os seus feitos na vida. Independentemente de tudo o que já possam ter alcançado e quaisquer que sejam as demonstrações e evidências das suas competências, estas pessoas permanecem convictas de que não têm mérito no sucesso alcançado e que são um embuste.

Quem vive com um sabotador interno não acredita nas evidências tangíveis e mensuráveis da sua competência, pois percebe-se como inferior, não se sentindo merecedor de reconhecimento ou elogio por algo que tenha feito, pois qualquer sucesso que tenha alcançado não lhe pertence, cuja explicação só poderá ser atribuída ao acaso ou à sorte de estar no lugar certo, na hora certa, ou porque foi ajudada por terceiros, ou qualquer outra coisa que não possua relação com o seu esforço pessoal.


A Síndrome do Impostor pode manifestar-se em qualquer pessoa, independentemente da sua experiência profissional, da sua posição social, do nível das suas competências, do seu grau de conhecimento ou categoria de especialização.

Os indivíduos que experimentam este fenómeno, racionalmente, sabem que dominam uma ou um conjunto de competências, mas emocionalmente sentem ser um engano. Ou seja, estamos perante pessoas que ainda não desenvolveram uma forma saudável e construtiva de se relacionar com as próprias emoções.


Segundo os desenvolvimentos empreendidos pela psicóloga PhD Suzanne Imes, pessoas nascidas em famílias muito exigentes tendem a sentir-se uma fraude com maior frequência. Pessoas perfeccionistas, habitualmente, estabelecem para si mesmas padrões de qualidade excessivamente altos, têm maior predisposição para se viciarem no trabalho, o sucesso torna-se uma obrigação que procura satisfazer a necessidade de provar a sua competência, o que aumenta a predisposição para sofrer com os sintomas desta síndrome. Também as pessoas que cresceram a receber elogios gratuitos, sem nenhuma evidência concreta do que fizeram bem, têm uma maior tendência para considerar o feedback de outros como exagerado, bem como o caso de pessoas que sentem facilidade numa determinada área de actuação ou no domínio de um conhecimento, ao estarem perante algo novo que no início apresenta dificuldades, poderão começar a questionar se as suas conquistas prévias seriam, de facto, meritórias.

Ainda segundo esta psicóloga, a Síndrome do Impostor parece ser mais comum entre pessoas prestes a iniciarem um novo empreendimento, seja uma grande mudança de vida, um novo negócio, um novo cargo e desafio profissional, ou um novo grau de formação académica.

Este padrão psicológico de desconfiança acerca da própria competência, cria uma percepção e sentimento generalizado de insegurança, e a cada nova conquista, estes indivíduos acreditam não estar a fazer o suficiente, o que leva a uma crescente insatisfação com o próprio desempenho e a gerar cada vez mais pensamentos de inadequação.

A experiência deste fenómeno cria um círculo vicioso de auto-sabotagem, dúvidas sobre si próprio e diminuição da auto-estima. Sobretudo quando as conquistas profissionais, académicas e pessoais se tornam a única base da identidade e amor-próprio dos indivíduos, em que estes assumem como verdade que precisam fazer muito bem, tudo o que fazem, para poderem ser amados.



O CICLO DO IMPOSTOR



De acordo com a informação publicada no artigo de 2011, The Impostor Phenomenon, de Jaruwan Sakulku e James Alexander, o Ciclo do Impostor é um dos fenómenos mais importantes desta síndrome.

Este ciclo inicia-se quando uma tarefa relacionada à realização de algo é atribuída. Pessoas que vivem com dúvidas e medos impostores, têm maior predisposição para experimentar ansiedade, criando mecanismos de adaptação para lidar com essa ansiedade que poderão ir da preparação exagerada à procrastinação inicial, seguida de uma preparação frenética e urgente. Ao concluir a tarefa, estas pessoas são invadidas por uma sensação inicial de alívio e realização, que tende a não perdurar nem persistir no tempo.

Embora pessoas que se sintam impostoras, possam receber feedback positivo de outras pessoas, relativo ao sucesso da realização de uma tarefa, elas tendem a negar que esse sucesso seja seu e resultante das suas próprias habilidades. Podendo haver uma rejeição das mensagens recebidas relativas à sua contribuição individual, por se apresentarem contrárias à sua percepção da mecânica do sucesso. Aqueles que se preparam de mais, acreditam que o sucesso se deve ao seu sobre esforço e ao trabalho duro. Já aqueles que inicialmente procrastinam, atribuem o sucesso à sorte.

Este ciclo é alimentado por um conjunto de crenças do indivíduo, que sempre que completa um ciclo e inicia uma nova tarefa relacionada à realização de algo, as dúvidas em si geradas, criam um alto nível de ansiedade e o ciclo repete-se.



TIPOS DE IMPOSTORES


Tal como tive oportunidade de referir mais acima, esta síndrome é um resultado de uma distorção cognitiva, em que a percepção do indivíduo é contaminada pelas suas próprias crenças que, neste caso, o impossibilitam de se perceber como eficaz.

Este conjunto de crenças mistura-se com 3 tipos de sentimentos, que podem ser experimentados individualmente ou todos misturados:

  • Tipo 1: “Sou uma farsa.” – esta crença vive alimentada por um medo de se ser desmascarado, levando a cenários imaginários de que apesar de todas as conquistas, um dia estes indivíduos serão revelados como fraudes;

  • Tipo 2: “Tive sorte.” – a pessoa percebe-se como pouco talentosa, logo é possuidora de uma ou mais crenças de que é pouco apta, o que resulta num sentimento de que qualquer conquista sua, foi na verdade fruto da sorte;

  • Tipo 3: “Isso não é nada.” – quando a pessoa acredita que quem está à sua volta exagera, ou que os concorrentes são fracos, tende a dizer a si própria “foi fácil, porque o desafio era pequeno”, apresentando dificuldade em receber elogios e feedback positivo, pois não consegue ver valor nas suas conquistas.


Para alguns indivíduos, a Síndrome do Impostor pode alimentar a sua motivação para alcançar um resultado, é o que na PNL chamamos de filtro de direcção, que neste caso é de afastamento. A pessoa é motivada pela necessidade de provar ou de manter ocultado que é uma fraude. O que, geralmente, apresenta um custo suplementar, pois a pessoa sente stress e ansiedade constantes e um aumento, significativo, das horas de trabalho, ao preparar-se excessivamente, trabalhando muito para assegurar que ninguém descubra que é um engano. Criando um ciclo vicioso de crenças que alimentam outras crenças como: “sou uma farsa, só consegui entregar o trabalho porque estive 3 dias sem dormir”.

Esta síndrome tem uma característica que, apesar de já a ter referido, quero sublinhá-la. A experiência de se sair bem em alguma coisa, não muda as crenças do indivíduo, pois é como se este não pudesse internalizar as suas experiências de sucesso.


Apesar de diversas publicações se debruçarem sobre esta síndrome vivenciada por mulheres, como já pude referir anteriormente, ela manifesta-se transversalmente, sem preferência de sexo, apresentando-se tanto em mulheres, quanto em homens.

Segundo Valerie Young, autora do livro The Secret Thoughts of Successful Women e especialista em Síndrome do Impostor, encontramos 5 tipos de pessoas que apresentam este fenómeno auto-debilitante:


O Especialista

“Preciso ter e saber todas as informações antes de começar a fazer qualquer coisa.”

“Preciso atender a todos os critérios de um anúncio de emprego para me poder candidatar.”

“Não quero fazer uma pergunta ou falar num contexto de grupo, pois isso fará com que pareça estúpido, inculto e inapto.”


O Perfeccionista

“Qualquer coisa que faça, tem de estar 100% correcta, idealmente, estar acima.”

“Cometi um erro! Aqui está a prova de que não sou suficientemente competente.”

“Será que sei mesmo sobre isto? O que é que ainda não sei sobre isto e deveria saber? O que mais posso fazer para garantir que fica perfeito?”


O Génio Natural

“Se sou de facto talentoso e estou destinado a fazer este trabalho, então não me devo esforçar para realizar nenhuma da suas tarefas.”

“Se preciso esforçar-me, isso prova que sou um impostor.”

“Se A ou B desempenham esta tarefa melhor do que eu, isso significa que não estou apto para esta função.”


O Solista

“Pedir ajuda é a demonstração de que sou um impostor.”

“Só fazendo tudo sozinho poderei aparecer como um não-fracassado, caso contrário, todos irão perceber que estou dependente dos outros.”


A Super-pessoa

“Tenho de trabalhar mais do que qualquer outra pessoa.”

“Podem pôr toda a responsabilidade sobre mim, assim consigo assegurar que ninguém me vê como um incapaz.”

“Uma meta estabelecida é para ser atingida na perfeição e superar as expectativas.”


Como estamos perante o domínio de crenças individuais que distorcem, omitem e generalizam informação da própria experiência do indivíduo, é possível observarmos diversos comportamentos disfuncionais, típicos e característicos nestas pessoas:

  • Necessidade de se esforçar sempre mais;

  • Perfeccionismo extremo;

  • Trabalhar em excesso;

  • Procrastinação;

  • Abandono de tarefas;

  • Auto-sabotagem;

  • Medo da exposição;

  • Comparação com os outros;

  • Querer agradar a todos.


Estas crenças são preenchidas de padrões emocionais e sentimentos, que permanentemente são sentidos por estas pessoas, tal como medo, ansiedade, stress, culpa, frustração, insegurança, raiva, tristeza, vergonha, entre tantos outros, que exigem ser enquadrados e entendidos, para que possam ser mudados, retirando força aos padrões de pensamento em que se traduzem as crenças. É útil questionar-se sobre que crenças centrais este indivíduo tem sobre si, se se sente merecedor, se se permite, em que medida coloca requisitos para que seja aprovado por outros. Normalmente, estas crenças desenvolvem-se em torno de uma abstracção resultante de aprendizagens sobre se somos dignos de amor como somos, se receber amor tem condições, etc.

Todas estas, são questões úteis em que qualquer um de nós poderá reflectir.



ULTRAPASSAR ESTA SÍNDROME


Este mecanismo psicológico caracterizado pela dificuldade de assimilar os próprios méritos e conquistas, e pelo sentimento constante de inadequação é uma circunstância em que diversas pessoas podem encontrar-se, mas não é uma condição, logo quando disfuncional, pode ser mudada.

Em tudo o que pude consultar para escrever este artigo, as abordagens para lidar e ultrapassar esta síndrome centram-se em “coisas a fazer” ou “coisas a parar de fazer”, tais como parar de se comparar com outros, partilhar angústias e preocupações, aceitar a condição de se ser imperfeito, parar os pensamentos sabotadores, celebrar conquistas, não bloquear sentimentos, usar menos redes sociais, etc., o que poderá até ser muito útil, mas na minha perspectiva significam o mesmo que dizer à pessoa “não faças isso!” ou “pára com isso!” e bom... se um “não faças isso!” ou um “faz isto em vez daquilo” fossem suficientes para que todos parássemos de ter comportamentos nocivos e disfuncionais, então nada disto seria um problema e nem sequer fazia sentido estarmos a explorar este fenómeno de forma aprofundada.

Ao estarmos perante um mapa de crenças individuais que em nada contribuem para um melhor desempenho dos indivíduos, significa que a mudança não se opera por mudarmos ou adoptarmos novos comportamentos, pois os novos comportamentos serão apenas o resultado de uma mudança operada mais profundamente. Para que fique mais claro, ao que me estou a referir sugiro que leia o Modelo de Comunicação da PNLlink.

Precisamos olhar para as crenças que sustentam a estrutura desta percepção, identificar intenções positivas e ganhos secundários por trás destes comportamentos, ressignificar experiências e memórias emocionais que alimentam, sustentam e suportam estas crenças, assegurando a ecologia interna e externa deste indivíduo, dando a possibilidade a que esta pessoa se “veja” e perceba de uma outra forma. É pela mudança na estrutura profunda que poderemos alterar comportamentos e aí sim, a pessoa encontrará novas vias mais funcionais e congruentes de se relacionar consigo própria e com as suas diferentes dinâmicas, contextos, vivências e desafios.


Como escreveu Bertrand Russell “As pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as idiotas, cheias de certezas”. Concluo este artigo com esta frase para poder fazer consigo esta reflexão: ter dúvidas e questionamentos sobre si, o seu desempenho e a sua vida, não é um problema, na minha opinião, é até desejável e um sinal de que quanto mais sabemos, mais percebemos que sabemos muito pouco. Esta percepção da diminuição do tamanho do nosso conhecimento à medida que vamos aumentando esse conhecimento, só será nocivo, se de alguma forma prejudicar, interferir ou obstaculizar o nosso crescimento, de outra forma, poderá ser apenas um sinal de inteligência, quiçá de sabedoria.


~ por Joana Sobreiro




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