A CURVA DE BANDURA

A Teoria da Aprendizagem Social


Já se deparou com um novo desafio de aprendizagem, como o de aprender a dançar? Ou desenvolver novas habilidades num desporto? Ou aprender uma nova língua? Ou assumir um cargo de liderança? Mudar de sector de negócio? Ou escolher uma nova profissão?

Sabemos que aprendemos ao longo da vida, havendo uma proliferação maior e mais rápida nos primeiros anos de vida, com tendência para se ir estabilizando quando chegados à vida adulta. Independentemente disso, acredito que todos nós já nos deparámos com um momento de “quero aprender algo novo”. Assim, conhecer alguns pressupostos da forma como aprendemos e como podemos potenciar a nossa aprendizagem, poderá ser de grande utilidade para estes momentos.


Neste artigo, vou procurar explorar consigo uma útil teoria da aprendizagem desenvolvida por Albert Bandura, psicólogo canadiano da Universidade de Stanford.

Nesta teoria da aprendizagem sugere-se que as pessoas aprendem ao observarem as consequências e os resultados dos comportamentos de outras pessoas.

A teoria da aprendizagem social de Bandura amplia a perspectiva das teorias comportamentais, que defendem que os comportamentos são aprendidos por meio do condicionamento, assim como das teorias cognitivas, que se debruçam, sobretudo, na atenção e memória como as principais influências psicológicas.


Na primeira metade do século XX, a escola comportamental tornou-se no conjunto de teorias dominantes. O behaviorismo defendia que a aprendizagem resultava da relação directa com o ambiente, ocorrendo por via da associação e reforço, ou seja, condicionamento. A teoria de Bandura apresenta-se com uma nova proposta, defendendo que o reforço não explicaria todos os processos de aprendizagem. Justificando que tanto crianças quanto adultos demonstram saber coisas para as quais não têm experiência directa. Exemplo disso, é que mesmo que nunca tenha jogado raquetes, se lhe colocarem uma na mão e lhe atirarem uma bola, provavelmente, saberá o que fazer com ela, simplesmente por já ter observado este comportamento em alguém. Quer isto dizer, que a aprendizagem não resulta apenas das associações resultantes do condicionamento, seja ele reforço ou punição, podendo ocorrer pela observação das acções de outras pessoas. Assim, nesta teoria acrescenta-se o elemento social como fonte essencial de aprendizagem por observação.


"Felizmente, a maior parte do comportamento humano é aprendida de forma observacional por meio da modelagem: a partir da observação de outros, forma-se uma ideia de como novos comportamentos são realizados e, em ocasiões posteriores, essa informação codificada serve como um guia para a acção."

~ Albert Bandura


Sendo a aprendizagem social a capacidade de reproduzir um comportamento observado, significa isto, que a aprendizagem se apoia, em parte, na imitação. Uma das mais conhecidas experiências de Bandura é a chamada “Boneco Bobo”, onde se demonstrou que as crianças aprendem e imitam os comportamentos que observam. Nesta experiência conduzida por Bandura, um conjunto de crianças observou um adulto a agir violentamente com o boneco. Quando as mesmas crianças foram, posteriormente, autorizadas a brincar com o Bobo, elas reproduziram os mesmos comportamentos agressivos que tinham observado. (veja o vídeo da experiência neste link)


Na continuidade das suas experiências, Bandura identificou três formas de aprendizagem por observação: através de um modelo vivo, isto é, uma pessoa real a demonstrar o comportamento; através de um modelo simbólico, que poderão ser personagens reais ou fictícias que demonstram comportamentos em livros, filmes, programas de televisão, videojogos, etc.; através da instrução verbal, com a descrição e explicação de um comportamento.

Como pode perceber, a aprendizagem por observação não carece de se observar alguém a ter um comportamento, basta que se recebam instruções verbais.



3 PRINCÍPIOS
DA APRENDIZAGEM SOCIAL

Segundo Bandura, a aprendizagem social exibe três princípios centrais:

· As pessoas aprendem por observação;

· O estado mental é parte essencial deste processo;

· Só porque algo foi aprendido, não significa que resulte num novo comportamento.


No que toca à aprendizagem por observação, esta já foi amplamente descrita anteriormente neste texto, assim, vamos agora explorar os dois outros princípios.

Bandura identificou que a mera observação de um comportamento não é factor exclusivo para que um comportamento seja aprendido, pois a motivação e o estado mental de um indivíduo tem forte influência na determinação de um comportamento ser ou não aprendido.

Esta ideia coloca esta abordagem, como o próprio Bandura a descreveu, não na categoria das aprendizagens comportamentais, mas como uma “teoria social cognitiva”. Segundo Bandura, há um conjunto de recompensas internas ao indivíduo, como a sensação de realização, satisfação e orgulho, que determinam a efectiva aprendizagem de um comportamento.

Assim como, se reconhece que somos capazes de aprender coisas mesmo que essa aprendizagem são seja imediatamente óbvia e/ou observável, o que significa que as pessoas podem aprender novas informações sem exibirem novos comportamentos.

Acresce a estes princípios, a noção de que nem todos os comportamentos observados são efectivamente aprendidos, pois existe um conjunto de factores-chave ou etapas que irão predizer a real apreensão de um novo comportamento.



APRENDIZAGEM:
MODELAGEM POR OBSERVAÇÃO

Para que o processo de observação resulte na aquisição de um novo comportamento, ou seja, que represente uma real mudança, existem algumas etapas envolvidas. São elas:


ATENÇÃO

Aprender pressupõe que estejamos atentos. Quando o modelo desperta interesse ou apresenta algo novo, a probabilidade de haver um maior interesse em depositar a atenção sem distracções, aumenta. A capacidade de estar atento é directamente proporcional à aprendizagem que é feita.


RETENÇÃO

Representa a capacidade de reter e armazenar informação. Como vimos a aprendizagem por observação não implica a imediata reprodução de um comportamento, mas para que esta possa ser feita, exige que o indivíduo seja capaz de reter a informação para que possa aceder a ela posteriormente.


REPRODUÇÃO

Após estar atento ao desempenho do modelo e reter essas informações, é importante que reproduza o comportamento observado. O número de vezes em que o comportamento é reproduzido, prediz o avanço no desenvolvimento da nova habilidade.


MOTIVAÇÃO

Por último, o sucesso da aprendizagem por observação depende da motivação que o indivíduo tem para imitar e reproduzir o comportamento que foi modelado.



A CURVA DE BANDURA

O trabalho de Bandura demonstra algo muito importante – há uma relação directa entre o mapa mental de um indivíduo e o seu desempenho comportamental, cuja estrutura se torna clara ao compreendermos o modelo denominado “Curva de Bandura”.

Ao querer construir pontes entre as teorias da aprendizagem tradicionais e as teorias cognitivas da personalidade, Bandura desenvolveu o conceito de “expectativa de autoeficácia”, onde relaciona os níveis de expectativa de um indivíduo com o comportamento por este demonstrado. Quer isto dizer, que procurou estabelecer uma relação entre o que a pessoa espera fazer e o que de facto faz.

Bandura identificou que quando alguém empreende um qualquer comportamento pela primeira vez e é bem sucedido, se essa pessoa interpreta esse sucesso como “sorte de principiante” a probabilidade da próxima tentativa ser menos bem-sucedida aumenta. E o inverso também se verificou, na expectativa de um bom desempenho, se o comportamento exibido fosse pior do que o esperado, ao dizer a si mesmo que poderia fazer melhor, resultaria num melhor desempenho na vez seguinte.


Pessoas que se consideram altamente eficazes pensam, agem e sentem de forma diferente daquelas que se percebem como ineficazes. As que se percebem eficazes produzem o seu futuro, em vez de apenas procurarem prevê-lo.

~ Albert Bandura


Bandura identificou uma correlação entre maiores expectativas e nível de desempenho. Apesar de ter identificado que a maior parte das pessoas ao empreender um novo comportamento as suas expectativas mostram-se baixas, o aumento destas contribui de forma positiva para a evolução e melhoria do desempenho dos indivíduos. Parte do seu trabalho procurou fazer com que as pessoas elevassem as suas expectativas em relação ao seu desempenho, o que levou a uma efectiva melhoria nos resultados comportamentais obtidos.

Como forma de influenciar as expectativas de um individuo que pretende empreender um novo desempenho, Bandura identificou quatro formas:


PERSUASÃO VERBAL

Esta primeira forma é, simplesmente, dizer “tu consegues!”. Genericamente, é dizer à pessoa que pode e consegue fazer melhor, como forma de incentivo. Apesar de ser uma via de o conseguir, per se não se mostra suficientemente eficiente.


MODELO ESPECIALIZADO

Esta segunda forma é designada por modelagem de um especialista. Significa isto que é importante a escolha do modelo cujo comportamento queremos mimetizar. É importante que o modelo escolhido seja bom. Um dos objectivos desta via de aprendizagem é abrir espaço para que o individuo comece a acreditar que é possível um melhor desempenho. O uso do modelo especializado é mais efectivo do que a persuasão verbal, mas não é garantia de sucesso, pois ainda há a possibilidade de o indivíduo confirmar que aquele desempenho é possível, mas não necessariamente crê que seja possível para si. Significa isto, que não há garantias de que as suas expectativas de autoeficácia melhorem.


APRENDIZAGEM VICÁRIA

Resulta da observação da melhoria do desempenho de alguém, o que irá resultar numa melhor expectativa sobre a melhoria da sua própria capacidade. Um bom exemplo disto são o desenvolvimento de pessoas em grupos e/ou equipas, onde cada indivíduo à partida se sente em paridade com os restantes. É recorrente haver uma aceleração nos níveis de aprendizagem pela possibilidade de cada indivíduo ver melhorias em outros, o que faz com que o seu grau de expectativa aumente.


MESTRIA ORDENADA

Esta quarta e última forma, suporta-se nas suposições individuais de curva de aprendizagem, quer isto dizer, que se pressupõe que o desenvolvimento de uma nova habilidade que se traduz num novo comportamento, ocorre numa sequência de melhoria. Significa isto, que em cada repetição é expectável um melhor desempenho. Este melhor desempenho gradual, ocorre com uma determinada velocidade e num determinado período de tempo. O que faz com que a atenção do indivíduo já não esteja nos desempenhos passados, mas na expectativa de melhoria e no estado óptimo da sua performance no futuro.


Bandura identificou que para qualquer novo desempenho há uma relação entre tempo e melhoria de performance que podem ser traçados numa curva. Considerando também um continuum entre a incompetência inconsciente e a competência inconsciente. Observe o gráfico:



O que Bandura identificou, foi que ao desenvolvermos uma nova habilidade ou uma nova aprendizagem de um novo desempenho, numa determinada fase deste processo a taxa de progressão estabiliza. Podendo o indivíduo sentir que chegou a um “tecto” de evolução. Nesta fase poderá haver frustração ou desânimo, quando nos deparamos com expectativas mais elevadas do que a capacidade demonstrada. É o momento em que a dúvida e o síndrome de impostor se podem instalar.

O mais relevante, é sabermos que é exactamente neste momento que precisamos reconhecer que novas habilidades são, eventualmente, necessárias. Ou seja, ao reconhecermos que as nossas capacidades actuais foram esgotadas e são insuficientes, que nos é dada a ciência de que novas capacidades precisam sem aprendidas. É nesta fase que voltamos a precisar de revisitar as 4 fases de melhoria de desempenho identificadas por Bandura.

A chegada à fase estacionária da curva mostra-nos que apenas dizermos a alguém “tu és capaz!” ou a utilização de um modelo especializado, se mostram totalmente insuficientes. Quando a curva se estabiliza, é a aprendizagem vicária e a mestria ordenada que apresentam um maior impacto no desempenho, na autoestima e autoconfiança, bem como na progressão.


Se se estiver a deparar com um momento assim, não desista, lembre-se que o momento mais escuro da noite é aquele que ocorre exactamente antes do amanhecer. Quer isto dizer, que é neste exacto momento que as suas expectativas se devem manter elevadas. E repetir, repetir, repetir... até que as novas habilidades adquiridas se tornem competências inconscientes que, por sua vez, se apresentarão num grau mais elevado da sua performance.

Boas práticas!


~ por Joana Sobreiro



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • Princípios da Modificação do Comportamento, de Albert Bandura (1962)

  • Teoria da Aprendizagem Social, de Albert Bandura (1977)

  • Fundamentos do Pensamento e da Acção: uma Teoria Social Cognitiva, de Albert Bandura (1986)

  • Auto-eficácia: Exercício de controlo, de Albert Bandura (1997)